segunda-feira, 16 de abril de 2012

Relacionamento com: Deus uma prece

                                    


Prece


Fernando Pessoa


Senhor...

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome. 

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um Pai...

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa orar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e orar a ti e adorar-te. 

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

domingo, 8 de abril de 2012

Relacionamento com a vida: até quando?



                                         

Ao homem está ordenado morrer uma só vez...

                                                                                   (Carta aos Hebreus 9.27)

Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.
                                                                                    (William Shakespeare)

Se quiseres poder suportar a vida,  fica pronto para aceitar a morte.
                                                                                                  (Sigmund Freud)



É difícil falar com certeza, mas quem estuda o assunto diz que morrem por dia no mundo cerca de 148.272 pessoas.

Por mais que a gente lute para viver muito, a verdade é que a morte é uma das poucas certezas que o homem e a mulher desfrutam na vida, diante dela o forte fica fraco, o herói se acovarda, o grande se apequena e todos se dobram.

Quem for ceifado na juventude não terá de encontra-la mais tarde, mas os que viverem um pouco mais dela também não escaparão.

O que me deixa as vezes boquiaberto é a forma que lidamos com a vida. sem saber quendo iremos traçamos planos e projetos, e vivemos como se só o vizinho é que fosse um dia partir, nos esquecendo que para o outro o vizinho somos nós.

Já perdi meu pai, os avós paternos e o avô materno, já fui a velórios de tios, tias, amigos, primos e conhecidos.

Cada vez que me encontro em um velório, penso um dia serei eu.

Vinicius de Moraes, célebre poeta, escreveu:


De manhã escureço,
De dia tardo,
De tarde anoiteço,
De noite ardo.
A oeste a morte,
Contra quem vivo,
Do sul cativo,
O este é meu norte.

Outros que contem,
Passo por passo:
Eu morro ontem,
Nasço amanhã,
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Mario Sergio Cortela, filósofo e profesor, diz  no texto "Descanse em Paz?", do Livro "Não Nascemos Prontos"da editora Vozes:

"Em uma de suas cartas, o romancista Gustave Flaubert escreveu: "Que grande necrópole é o coração humano! Para que irmos aos cemitérios? Basta abrirmos as nossas recordações; quantos túmulos!".

"Não temos tempo!" Houve uma época na história humana (e não faz muito tempo) na qual, quando um dos nossos morria, parávamos tudo o que estivéssemos fazendo; o trabalho, ou o que mais fosse, era interrompido, e, se preciso, faziam-se longas viagens, até noturnas (sem os rápidos aviões, carros e boas estradas), mas não deixávamos de, velando os partintes, cuidar dos ficantes.
A humanidade houvera compreendido que, se com a morte não nos conformamos, ao menos nos confortamos, nos fortalecemos em conjunto, nos apoiamos. As pessoas ficavam às vezes por um dia e uma noite, em volta da família, aglomerados, grudados, exalando solidariedade e emoção, orando e purgando lentamente o impacto, mostrando aos mais próximos que não estavam sozinhos na perda.
É sinal de humanidade não se conformar com a morte e, portanto, buscar vencer simbolicamente o que parece ser invencível. A própria palavra cemitério (derivada do grego), usada em vários idiomas, significa lugar para dormir, dormitório, lugar para descansar. 
Deixamos de velar (no sentido de tomar conta, cuidar!) para velar (como cobrir, ocultar, esquecer, apagar).
Não temos mais tempo! Se recebemos a notícia de que algum conhecido faleceu, olhamos o relógio e pensamos: "vou ver se dou uma passadinha lá...."; alguém morre às 10 horas da manhã e, se der, será enterrado até as cinco da tarde, de maneira a, em nome do "não sofrermos muito", sermos mais práticos e rápidos. Nem as crianças (já um pouco crescidas) são levadas a velórios; muitos argumentam que é para poupá-las da dor. Isso não pode valer, parte delas cresce sem a noção mais próxima de perda e, despreparadas e insensibilizadas para enfrentar algumas situações nas quais a nossa humanidade desponta, simultaneamente, fraca e forte, perdem força vital.
Por isso, não será estranho se, em breve, tivermos que nos acostumar também com o velório virtual ou, principalmente, como já está começando em países mais "avançados", o velório "drive-thru": entra-se com o carro, coloca-se a mão sobre o corpo do falecido (enquanto o sensor lê tuas digitais para enviar um agradecimento formal), aperta-se um botão com a oração que se deseja fazer e...pronto, já vai tarde. Parece ridículo? Se não prestarmos atenção, assim será. 
Vale o alerta de Gilberto Cesbron: "E se fosse isso perder a vida: fazermos a nós próprios as perguntas essenciais um pouco tarde demais?"



E hoje o que estás construindo?

Todos deixaremos um legado.

Todos um dia seremos história na boca de alguém.

Todos nós um dia teremos um ponto final em nossas existência terrena.
Eu como cristão convicto sou adepto da crença que nem tudo termina por aqui.
Mas e você?

Como diz Cortela no título de um de seus livros, por sinal um dos melhores que já li: "Qual é a tua obra?" 


Pelo que você vive? Pelo que nós vivemos? O que nos inspira? O que nos desafia? O que nos deixa indignados? O que nos faz sonhar?


Quando crianças somos cheios de utopias, sonhos irrealizáveis para os outros, mas não para nós!

Porém com o passar dos anos, com as aparentes contradições da vida, com as diversas frustrações contínuas, enterramos os sonhos no terreiro dos medíocres e com eles passamos a andar.

 Setenta anos, talvez oitenta ou noventa, nós viveremos, parece muito, mas não é depois de algumas décadas,são muitas lembranças da infância e parece que foi ontem.

Acorde enquanto é possível, ontem não existe mais, amanhã é dúvida. O que temos então?

Temos o hoje. Temos o agora. 
Digo isto não despresando o passado ou o futuro.

Antes oriento que se siga o sábio conselho de Paulo Freire, um dos maiores pedagogos que o Brasil já teve:

(...) todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje (...). Temos de saber o que fomos, para saber o que seremos”.

Jesus Cristo,meu amado mestre, disse:
...Hoje pedirão a tua alma e o que tens para quem será?

sexta-feira, 23 de março de 2012

Procura-se um amigo: relacionamento interpessoal


                            

"Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando

chamado de amigo. 

Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de

grandes chuvas e das recordações da infância.




Preciso de um amigo para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste

durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.




Deve gostar de ruas desertas, de poças d´água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. 

Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já tenho um amigo.




Preciso de um amigo para parar de chorar. 

Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.


Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que me chame de amigo, para que eu tenha a consciência de que ainda vivo"




Vinícius de Moraes 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Relacionamento com Deus: Adoração!


                              
Uma reverência e um beijo

Autor: Philip Yancey

A adoração verdadeira revela tanto a amizade quanto o temor a Deus.



O cristianismo afirma um lugar único entre as religiões do mundo. Nossa fé fala de um Deus diante de quem os mais poderosos santos tiram os sapatos, curvam-se, rosto em terra, e arrependem-se no pó e na cinza. Ao mesmo tempo, ela afirma que um Deus que veio à terra, como um bebe, que mostrou carinhosa misericórdia para com as crianças e os fracos, que nos ensinou a chamá-lo de Aba, que amou e foi amado. Os teólogos dizem que Deus é transcendente e imanente. Deus inspira, ao mesmo tempo, respeito e amor, temor e amizade.


Para os mais modernos, no entanto, o sentimento de respeito surge com muita dificuldade. Domesticamos os anjos até transformá-los em brinquedos de pelúcia e ornamentos natalinos, fizemos cartões de São Pedro nos portões do céu, amansamos o fenômeno da Páscoa com coelhos desajeitados e substituímos o respeito dos pastores e dos magos por duendes fofinhos e um homem divertido vestido de vermelho. O Deus todo-poderoso ganhou apelidos, como 'O Grande Cara' e 'O Homem Lá de Cima'.

Em fevereiro de 2005, esta revista( Cristianity Today) publicou um artigo que trata de um assunto que me irrita. Qual foi o processo que levou a palavra adoração tornar-se sinónimo de música? Por muitos meses, minha igreja procurou um 'pastor de adoração' e houve um desfile de candidatos para uma audição, com suas violas e grupos vocais. Sim, alguns deles oraram: 'Senhor, apenas o Senhor sabe, esteja verdadeiramente conosco esta noite e deixe-nos saber que está aqui'. Ninguém mostrou muito conhecimento de teologia e, seguramente, ninguém nos levou a sentir algo como respeito. Hoje, adoração significa preencher com barulho qualquer espaço de silêncio.

Saúdo o sentimento de celebração e alegria aparente em muitas músicas actuais. Ainda assim, espanta-me o que deixamos de lado quando tentamos reduzir a distância entre a criatura e o Criador, distância essa tão eloquentemente expressa por Jó, Isaías e os salmistas. João, o discípulo a quem Jesus amava, que reclinara a cabeça sobre Jesus, registrou, em Apocalipse, que caiu aos seus pés como morto, quando Jesus apareceu em toda sua glória.

O estilo de adoração oscila de cá para lá, como um pêndulo, do ortodoxo ao doukhobors, do anglicanismo aos quacres, do luteranismo ao moravianismo, de igrejas aprovadas e estabelecidas às igrejas contracultura emergentes; e, talvez, precisemos de um pouco das duas. Certa vez, Sören Kierkegaard disse que lidamos com a adoração como se o pastor e o coro fossem actores, e a congregação, a audiência, quando, em vez disso, Deus deveria ser a audiência; o pastor e o coro, os incitadores; e a congregação, os verdadeiros participantes. O que apresenta uma questão interessante: que tipo de música Deus prefere? Parece que temos muito tempo para aprender a resposta a essa pergunta, pois Apocalipse apresenta muitas cenas de criaturas adorando Deus por meio da música e da oração.

Abraham Heschel, eticista e escritor judeu, fez a seguinte observação: 'Respeito, ao contrário do temor, não nos faz encolher diante do objeto de respeito, antes, leva-nos para perto dele'. Martinho Lutero disse que devemos orar com a reverência dirigida a Deus, e a ousadia, a um amigo.

Um líder de adoração, que causa um crescente impacto na música cristã, tenta manter em criativa tensão esses dois elementos de respeito e temor. Matt Redman, autor de canções como Heart of Worship [Coração de adoração], Better Is One Day [Um dia melhor] e Let My Words Be Few [Que minhas palavras sejam poucas], lidera o grupo Soul Survivor, que se reúne num grande armazém em Londres, Inglaterra. Certo ano, Redman e seu pastor, preocupados com o fato da música de adoração ter se tornado o foco dos músicos, em vez de Deus, deram um audacioso passo e eliminaram totalmente a música do culto de adoração. Após esse período de 'jejum', ele emergiu com uma nova compreensão de adoração. Conforme declarou em uma entrevista no rádio:

[Adoração] é mais bem resumida em Efésios 5.10, que afirma: 'Aprendam a discernir o que é agradável ao Senhor'. Se falar sobre música, na verdade, quer fazer uma oferta que o agrade e, obviamente, ele não está preocupado com a música em si, o estilo ou se você toca no tempo certo e coisas assim. Quando despeja seu coração na música e apoia isso com sua vida, esse, provavelmente, é um coração de adoração.

Um disco de Redman, lançado em 1998, chamado The Friendship and the Fear [A amizade e o temor], título retirado de um versículo de Salmos 25: 'O Senhor confia os seus segredos aos que o temem, e os leva a conhecer a sua aliança' (v. 14). Redman continua a explorar a região fronteiriça entre o respeito e o temor, pois a autêntica adoração engloba ambos. Essa é a resposta apropriada, quando o Deus santo faz um convite à intimidade para o ser humano imperfeito. No Antigo Testamento hebraico, a palavra original para adoração significava 'curvar-se em reverência e submissão'. No Novo Testamento, a palavra grega mais usada para adoração significa 'apresentar-se para beijar'. Entre esses dois significados — ou em uma combinação de ambos — encontra-se nosso melhor caminho para Deus.

FONTE ORIGINAL: Christianity Today.  Maio de 2005, Vol. 49, Nr. 5, Página 80.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Eu sei que a gente se acostuma...relacionamento com a vida

                                 


Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(Marina Colasanti)