sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Salvação: revelação divina para a humanidade



                                   

                          

(Fonte: Teologia Sistemática II - Pr Davi Alencar Santana)

Quando me vejo, nas maiores tempestades, só tu meu Deus é o meu refúgio. 

De ti não preciso esconder que estou fraco, pois tu sabes que sou pó. 

Para ti não preciso fingir superioridade, porque és o Todo Poderoso. 

Quando peco não preciso me esgueirar pelos becos escuros, pois diante de ti não 

existe um Justo. 

Nenhum sequer que só faça o bem e nunca peque. Tú és luz que ilumina minha escuridão. 

Diante de ti o rei tira a coroa, se despe da capa e pousa no chão o cetro. 

Os presidentes se curvam juntos com os generais, os brigadeiros, os coronéis e almirantes. 

Todos enxergam a tua grandeza e a tua glória não lhes é encoberta. 

Contudo, mesmo com tanto poder emanando de ti, o menino te procura e fura a fila dos apóstolos. 

A prostituta se prostra e recebe perdão e lavando com suas lágrimas os teus pés. 

O doente se aproxima e é curado. Leprosos são purificados, cegos voltam a ver e coxos andam. 

Só que não é isto que mais me encanta e sim a mulher, acusada pelo religioso, rejeitada pela sua conduta, difamada por não ter moral ilibada, mas o Senhor não tem censura para ela. 

Não censura porque conhece. Sabe que para ela tu és o porto seguro. 

Porto seguro para o ladrão Dimas, que na hora da morte vê em ti sua tábua de salvação. 

Pilatos não te viu assim. Herodes te zombou. O carrasco te chicoteou. O soldado te cuspiu. 

Anás e Caifás te julgaram herege, falso profeta e falso Cristo. 

Mas o ladrão não. O ladrão te viu como seu porto seguro nas águas gélidas e aterrorizantes da morte.Ele enxergou além das aparências, além dos dogmas, além da sua justiça própria. 

Por não ter nada mais para olhar caiu em si e te viu, meigo Salvador. 

Os discípulos a caminho de Emaús, não te conheceram. 

A dor da tua ausência era tão grande que não percebiam a tua presença. 

Mas o Senhor sempre parte o pão, parte para nos dar de comer. Nesta hora o olho abriu, o discípulo te viu e o Senhor sumiu. Ele então disse que seu coração ardia quando falavas. 

Ah! Senhor meu e Deus meu, basta uma palavra e eu te verei na maior escuridão. Na negritude da noite te enxergarei. Meu farol, tu serás e meu porto seguro também. 

Bendiga minha alma ao Senhor e tudo o que existe em mim, existe para te adorar. 

Não vou a ti com caravelas cheias de tesouros, até porque não os tenho para te dar. 

Vou com o barquinho da minha existência, pequeno, frágil, desbotado, imperfeito, mas sabendo e crendo que vou ancorar em ti meu porto seguro. 


A salvação é um termo que genericamente se refere à libertação de um estado ou condição indesejável. 

O conceito de salvação eterna, salvação celestial ou salvação espiritual faz referência à salvação da alma, pela qual a alma se livraria de uma ameaça eterna (castigo eterno ou condenação eterna) que a esperaria depois da morte. 

Na teologia, o estudo da salvação se chama “soteriologia” e é um conceito vitalmente importante em várias religiões, em especial no Cristianismo que é o nosso caso. 

· A palavra salvação tem sua origem no grego “soteria” transmitindo a ideia de cura, redenção, remédio e resgate. 

· No latim “salvare”, que significa salvar, e também de “salus” que significa ajuda ou saúde. 

.O verbo salvar e o substantivo salvação aparecem mais de 150 vezes só no Novo Testamento. 

Na realidade o Novo Testamento não faz distinção entre a salvação espiritual, da alma, e a salvação corporal, mas encara a pessoa inteira (integral/holística) considerando que um homem carregado de pecado e levado pelas ondas da incredulidade, corre perigo total. Uma vez tal pessoa convencida pelo Espírito Santo, não hesitará em invocar o socorro de Jesus Cristo para a salvação. (Oliveira/1999) 

Em Tito a salvação é exposta da seguinte forma: 

Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens. (Tt 2.11) 


I. A SALVAÇÃO REVELADA NAS ESCRITURAS SAGRADAS 


De Gênesis ao Apocalipse, as escrituras sagradas, abordam um tema que é redundante por toda ela, se trata da redenção da humanidade. Nas primeiras páginas sagradas encontramos um homem caminhando em perfeita comunhão com seu Criador e que desfruta de sua amorosa presença diariamente. Porém o evento da queda humana destrói esta comunhão e Deus passa a colocar em prática o plano da salvação como explicitado na bíblia sagrada: “- A redenção do homem é o sublime tema de toda a Bíblia e deve ser de todo sermão evangélico”. (Oliveira/1999) 


II. COMPREENDENDO A NOSSA SALVAÇÃO 


A SALVAÇÃO PROCEDE DE DEUS DE FORMA GRATUITA 

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.
Não vem das obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2:8-9). 

O homem não tem condições de sozinho se salvar da condenação eterna e não é pelas suas obras, por melhores que sejam que fará com que este consiga se aproximar de Deus e receber sua salvação eterna e garantida, antes são os méritos de Cristo imputados a ele pela fé que lhe propicia a salvação. (Rm 5.1) 


A SALVAÇÃO SÓ PODE SER CONCEDIDA ATRAVÉS DE JESUS CRISTO 

Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. 
(João 14:6) 

O homem não tem condições de sozinho se salvar da condenação eterna e de uma existência sem sentido afastado de Deus. Sendo assim é preciso ter um encontro pessoal com Cristo Jesus para ter sua vida radicalmente salva e transformada. 

 A SALVAÇÃO SÓ É POSSÍVEL PELA MORTE E PELO SANGUE DE JESUS CRISTO 

Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados. (Cl 1.14) 

A SALVAÇÃO É INTEGRAL NA VIDA DO SER HUMANO 

Quando as escrituras retratam a salvação do homem e da mulher, ela o faz se referindo não apenas a sua parte imortal que é o espírito e a alma, Deus quer efetuar esta salvação no homem como um todo, espírito, alma e corpo, relacionamentos, etc... Isto significa que ele quer santificar o nosso espírito, tratar as nossas emoções, trabalhar os nossos comportamentos e assim alterar os paradigmas referentes aos nossos relacionamentos, com ele, com as pessoas e com a própria vida. 

A SALVAÇÃO ABRANGE PASSADO, PRESENTE E FUTURO 

· Deus no passado nos salvou do poder do pecado. Éramos escravos dele do pecado e agora somos livres para servir e adorar ao nosso Salvador e Senhor. 

· Deus nos salva no presente, pois agora vivemos não debaixo da influência maior do pecado antes estamos debaixo da graça de Deus que nos habilita a cada dia a vencermos o mal com o bem que agora habita em nós, proveniente do Espírito Santo e de sua palavra. 

· Deus nos salvará no futuro da presença do pecado. A promessa das escrituras é que um o pecado será página virada, uma vez que na ressurreição dos justos o pecado será de uma vez por todas extirpado, excluído de nossa realidade, de nossos corpos, de nossas vidas. 


E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória? Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.
Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. 
(1 Coríntios 15:54-57) 


III. ASPECTOS A CONSIDERAR REFERENTE À SALVAÇÃO 



A salvação de todo aquele que crê em Deus passa por alguns elementos segundo Bancroft (1995) e Oliveira (1999). Vamos considerar alguns a seguir: 

Arrependimento (Mt 3.1-2). Este elemento tem dois componentes: 

1. Tristeza pelo pecado praticado. 

2. Conversão, que consiste na mudança de rota ou destino, voluntariamente. 

· Fé. (Hb 11.1 e 6; 2Tm 3.15). Arrependimento é dizer não ao pecado, enquanto que a fé, como elemento da salvação, é dizer sim a Deus. Este é o lado afirmativo da conversão. Enquanto o arrependimento enfatiza os nossos pecados, a fé fixa os nossos olhos em Cristo, o autor e consumador dela. 

· Justificação. (Rm 3.24-26) Por justificação, entende-se o ato pelo qual Deus declara posicionalmente justa a pessoa que a Ele se chega através da pessoa de Jesus Cristo. Esta justificação envolve dos atos: cancelamento da divida do pecado na “conta” do pecador, e o lançamento da justiça de Cristo em seu lugar. Tornando mais claro: justificação não é aquilo que o próprio Cristo é e faz na vida do crente. 

· Regeneração. (Tt 3.5; Jo 1.12,13). A natureza divina passa a habitar no crente, mediante o poder do Espírito Santo. Sem esta miraculosa transformação espiritual, o pecador arrependido permaneceria morto na sua natureza pecaminosa (Ef 2.1,5) e incapaz de conhecer a Deus num relacionamento pessoal (1 Co 2.14) 

· Adoção. Através deste ato, nós deixamos de estar desgarrados da família de Deus para passar a fazer parte dela, como filhos adotados e coerdeiros, com Cristo de todas as suas riquezas espirituais. 

Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai.
O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.
E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. (Romanos 8:15-17) 

· Santificação. Este é o único elemento na salvação que não é um evento, não é um ato imediato. Ele é um processo que se inicia na conversão e dura toda a vida. 

E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. (1 Tessalonicenses 5:23) 


Este é o processo onde Deus imprime em nós o caráter de Jesus, nos tornando cada dia mais parecidos com ele. Raimundo Ferreira de Oliveira discorrendo sobre santificação diz o seguinte: 

“O alvo de viver uma vida santificada não é a perfeição plena, mas sim, a progressão. Se Deus quisesse que o crente, para conservar a sua salvação, tivesse de cumprir seus padrões de perfeição, teria reduzido seus padrões ao nível da possibilidade humana, ao invés disto, porem Ele apresenta o alvo da santificação como sendo o aperfeiçoamento do caráter do cristão”. (1999, p.11


REFERÊNCIAS:

BÍLIA DE ESTUDOS PENTECOSTAL
DOUTRINAS BÍBLICAS, RAIMUNDO FERREIRA DE OLIVEIRA
A BÍBLIA ATRAVÉS DOS SÉCULOS, ANTÔNIO GILBERTO
TEOLOGIA ELEMENTAR, BANCROFT
PEQUENA ENCICLOPÉDIA BÍBLICA , ORLANDO BOYER

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Pecado e a humanidade




O PECADO E SUA ORIGEM

(Fonte: Apostila Teologia Sistemática II - Davi Alencar Santana)


O ser humano tem uma tendência “natural” de fazer o que é errado? Sua natureza carrega uma possibilidade enorme de agir de forma contrária ao bem moral, ao que é justo, íntegro e bom? Esta tendência de agir errado, quebrar princípios morais, éticos e até ensina-los a outros teve sua origem onde? Quando a humanidade começou agir contra seu próprio bem estar? Será que sempre foi assim? Será que o homem que faz escolhas erradas ou arbitrárias ao bom senso, faz isso por livre e espontânea vontade? Será que é possível viver uma vida com mais acertos do que erros? Será que isto é apenas um desvio natural de conduta ou existe uma lei em cada ser humano que o incita ao imoral, ao ilegal, ao desumano? Será que o pecado tão enfaticamente citado, pregado, apontado e reprimido pelas religiões é real? Qual a sua origem? Qual será o seu fim? Teremos um dia libertação total e plena de sua presença maldita? Como você responderia estas questões? Pecado é originado na mente nervosa dos religiosos medievais? Pecado é consequência de uma “Queda” a milhares de anos? Mito? Verdade? Crendice popular? Como você responderia essas indagações? 

Quando olhamos para as escrituras sagradas e para seus textos cheios de vida e revelação, podemos encontrar as respostas para estas e muitas outras perguntas. A melhor forma é compreendendo alguns princípios:


I. NÃO FOI DEUS QUEM CRIOU O PECADO

Deus é santo, puro e nele não existe mal algum. Tentar sobre ele a culpa do pecado é uma blasfêmia contra seu caráter extremamente perfeito e amoroso. Sendo Deus onisciente carrega em seu ser o atributo de saber tudo antes de acontecer, porém ao permitir a queda do homem e a sua separação espiritual ele apenas deixou bem claro que não queria de seu lado um autômato, um robô, uma máquina para fazer sua vontade ainda que contrariado, mas queria e quer ter perto de si um ser livre que opta por ele por livre e espontânea vontade. 


“Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e Ele mesmo a ninguém tenta.”                                  (Tg 1.13) 

II. O Deus das escrituras sagradas odeia o pecado, mas ama o pecador:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.                     (Jo 3.16) 


III. ONDE O PECADO TEVE ORIGEM

O pecado não se originou no Jardim do Éden, como algumas pessoas prematuramente deduzem. Sua origem é mais antiga e começou em outro lugar. O pecado se iniciou em um coração não humano, em um coração angelical, no coração de um dos anjos de Deus, no coração de um querubim ungido, no coração daquele que viria a ser chamado de Diabo, Satanás, Serpente, Inimigo de Deus e da humanidade, mas que um dia já foi um anjo dos mais próximos de Deus. Este se ensoberbeceu e a partir de então caiu em estado de condenação, se afastando eternamente do reino da luz pra viver nas trevas morais e espirituais.Deus criou os anjos como seres dotados de relativa perfeição; porem, Lúcifer e legiões deles se rebelaram contra Deus, pelo que caíram em terrível condenação. O tempo exato dessa rebelião e queda não é dado a conhecer na Bíblia, porem, em Jo 8.44, Jesus fala do diabo como aquele que é homicida desde o principio; e 1 João 3.8 diz que o diabo peca desde o principio. Bem pouco se diz a respeito do pecado que ocasionou a queda dos anjos; porém, quando Paulo adverte a Timóteo para que nenhum neófito seja designado como bispo ele diz:

“Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo”. (1 Tm 3.6)


IV. QUANDO O PECADO ALCANÇOU OS HOMENS?

No livro de Gênesis no capítulo 3 tem um relato que nos orienta como foi a entrada do pecado no reino dos homens:

Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?
E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos,
Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais.
Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. 
Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal. 
E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. 
E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim. 
E chamou o SENHOR Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás? 
E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me. 
E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses? 
Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi. 
E disse o SENHOR Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi. 
Então o SENHOR Deus disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida. 
E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. 
E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. 
E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. 
Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. 
No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás. 
E chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a mãe de todos os viventes. 
E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu. 
Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente, 
O SENHOR Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado. 
E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida. 
(Gênesis 3:1-24) 


V. LIÇÕES QUE O TEXTO QUE GN 3 NOS ENSINA SOBRE O PRIMEIRO PECADO HUMANO


1. O pecado foi fruto de uma tentação do diabo.


2. O pecado foi um ato voluntário do primeiro casal.


3. O ato foi uma desobediência ao que Deus falara.


4. O erro do primeiro casal teve consequências para eles e para a humanidade toda.


5. O pecado de Adão trouxe morte física, espiritual e eterna para toda a humanidade.


6. O pecado afastou o homem do paraíso e da comunhão com Deus.


7. O pecado do homem não invalidou o amor incondicional de Deus.


8. O pecado do homem provou que ele tinha e tem liberdade real.


“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.” (Rm 5.12,18,19.)


VI. O PECADO DO SER HUMANO SE INICIA NO CORAÇÃO

Quando dizemos isto não estamos nos referindo ao órgão que palpita, pulsando, dentro do peito do ser humano para enviar sangue por todo o nosso corpo, pra nos manter vivos. Eu me refiro à sede do intelecto, da vontade e das emoções humanas, que nos distingue de todos os demais seres terrestres e terrenos. É dentro deste coração que se origina o mal e a maldade para com o próximo, é ali que se maquina as traições, as trapaças e os projetos que culminam com a destruição moral tanto de seu agente como de suas vítimas.

O sábio deu um conselho para nós acerca disto:

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. (Provérbios 4:23)

Jesus também alertou seus ouvintes dizendo:

Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem, mas comer sem lavar as mãos, isso não contamina o homem. (Mateus 15:19-20) 


VII. O PECADO É PRIMEIRAMENTE CONTRA DEUS

O Criador das leis universais que regem o universo moral dos comportamentos humanos é Deus. Quando o homem pecou e a bíblia diz que este morreria, ela falava da separação entre este e seu criador. Quando o ser humano peca, se coloca em rebeldia contra Deus. O pecado pode ser definido de diversas formas, como fracasso, erro, iniquidade, transgressão, contraversão, carência da lei e injustiça. A característica principal do pecado em todos os seus aspectos, é que ele está sempre orientado contra Deus, conforme mostram os seguintes textos do salmista e de Paulo:

Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista,                 (Salmos 51:4)

Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser.  (Rm 8.7)


VIII. O PECADO ORIGINAL: A QUEDA E A NATUREZA HUMANA

Na teologia, chamamos de “pecado original” a condição em que nasce o ser humano, trazendo em sua natureza a “marca do pecado”, a índole que arrasta o ser humano para dar preferências para aquilo, que mesmo sabendo que não é bom e que é errado praticar, age como uma “lei mais forte” que seduz o homem ou a mulher e já é notado desde a mais tenra idade na vida das crianças. 

O apóstolo Paulo trata deste assunto na epístola aos Romanos:

Porque o que faço não o aprovo pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. (Romanos 7.15-23) 


Esta natureza, este pecado original, é proveniente da nossa identificação com Adão como primeiro homem, assim revela as escrituras pela pena de Paulo:

Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.   (Romanos 5:12)

Em “Doutrinas Bíblicas”, Oliveira trata do assunto com as seguintes palavras:

“A palavra culpa, com relação ao pecado original, expressa a relação que a justiça tem com o pecado, e, como expressavam os teólogos mais antigos, a relação que o pecado tem com pena da lei. É assim que a culpa do pecado de Adão, como cabeça da raça humana, é imputada a todos os seus descendentes”. (1999, p.98)


IX. O PECADO PRATICADO: AÇÕES DO COTIDIANO

O grande diferencial deste pecado não está na sua natureza, visto que ambos são transgressões contra a vontade boa, perfeita e agradável de Deus para seua filhos. A diferença consiste que “os pecados praticados” são atos enquanto o pecado original é um estado que em Adão deu origem a todos os demais “pecados praticados” até hoje e em nós consiste nesta “tendência”, que “sugere” o erro a cada ação humana. “Pecados praticados” são os atos externos que se executam por meio do corpo. São também todos os maus pensamentos conscientes. São os pecados individuais de fato. “O pecado original é um só, enquanto que o pecado praticado desdobra-se em diferentes classes, incluindo atos e atitudes”. (Oliveira,1999). 


O apóstolo João tratando deste tema em especial lança luz para compreendermos melhor o assunto:

“Se dissermos que não temos PECADO, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. Se confessarmos os nossos PECADOS, Ele é fiel e justo, par nos perdoar os pecados, e nos purificar de total injustiça” (1 Jo 1.8,9).


PECADO: Significa Natureza Caída – Pecado Original

PECADOS: Significa Pecado Praticado – Ações do Cotidiano


X. COMO O CRENTE DEVE LIDAR COM O PECADO

Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta,
Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus.
Considerai, pois, aquele que suportou tais contradições dos pecadores contra si mesmo, para que não enfraqueçais, desfalecendo em vossos ânimos. 
Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado. 
E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, E não desmaies quando por ele fores repreendido; 
Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho. 
Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? 
Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos. 
Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos? (Hebreus 12:1-9) 

Todo cristão deve compreender que o alvo maior de Deus é torna-lo cada dia mais parecidos com Cristo:

E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.
Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou.                                     (Romanos 8:28-30) 



Para que nós possamos viver a vida que Deus planejou para nós, precisamos pelo seu Espírito (Gl 6.16 e Ef 5.18) vencer a cada dia a nós mesmos. Esta vitória só é possível quando no dia a dia conseguimos vencer o pecado pela vitória de Cristo em nós e por nós (Rm 8.1). O significado e a gravidade do pecado são melhor compreendido pelo crente do que por qualquer outra pessoa. Ao longo de toda a narrativa bíblica, o crente é advertido contra o pecado, pois este é o único divisor entre Deus e o homem:


· Nada pode separar o cristão de Deus. (Rm 8.35-39)


· Somente a prática do pecado. (Is 59. 1-2)


XII. AS PRINCIPAIS RAZÕES QUE LEVAM O CRISTÃO A PECAR


· A natureza pecaminosa (Rm 7.21-25)


· O sistema mundial que esta sob o domínio de satanás (1 Jo 2.15-17)


· Falta de oração e de cuidadoso estudo das Escrituras (Ef 6.10-18)


O cristão deve tomar muito cuidado porque Jesus disse que: “a quem mais é confiado mais será requerido”, O Novo Testamento determina a gravidade do pecado de acordo com o grau de conhecimento que se tenha a respeito dele e de Deus e seu evangelho. Os gentios, que estão no seu pecado, são culpados aos olhos de Deus; porem, aqueles que gozam do favor do evangelho e tem a revelação de Deus, são muito mais culpados quando caem

(Mt 10.15; Lc 12.47,48; Jo 19.11; Rm 1.32; 2.12; 1 Tm 1.13,15,16).


Todo mundo perde quando peca, porém para o cristão a perda é maior, observe o que acontece:


· A perda de comunhão com Deus (1 Jo 1.5,6; Sl 51,11)


· Os inimigos encontram oportunidades de blasfemar de Deus (2 Sm 12.14)


· Perda do galardão (1 Co 3.13-15)


· Possível morte prematura (At 5.1-11 e 1 Co 11.30)


· Maus exemplos (1 Co 8.9,10)


· Destruição da fé e consequente morte espiritual (Rm 6.16; 1 Jo 5.16,17)



XIII. ATITUDES QUE DEVEMOS TOMAR PARA COM O PECADO


Não deveríamos pecar. Mas como somos humanos e sujeitos a falhas e deslizes pecamos, porém o pecado na vida do cristão deve ser um acidente e não uma prática voluntária e premeditada. Pecamos de diversas formas, as mais comuns são:

· Pensamentos


· Palavras


· Ações 


· Reações 


· Omissões


Contudo quando isto acontecer aprenda com seus erros e pecados e crie algumas estratégias para vencer o pecado. Veja algumas delas e os exemplos bíblicos nos deixados:

· Reconhecer o pecado (Sl 51.3) – Ex. Davi e a repreensão de Natã.


· Evitar o pecado (1 Tm 5.22) – Ex. José e a tentação da esposa de Potifar.


· Detestar o pecado (Jd v. 23) – Ex. Moisés e o episódio do bezerro de ouro


· Resistir o pecado com confiança em Deus (Tg 4.7,8) – Ex. Jesus e a tentação do deserto.


· Confessar os pecados (1 Jo 1,9) – Ex. Zaqueu e seu comportamento diante de Jesus.


· Abandonar os pecados (Pv 28.13) – Ex. Pedro depois do encontro com Cristo.


“Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós”.
“Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo, para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça.” (1 João 1.8,9)


CONCLUSÃO

“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo.” (1 Jo 2.1)

REFERÊNCIAS:

BÍLIA DE ESTUDOS PENTECOSTAL
DOUTRINAS BÍBLICAS, RAIMUNDO FERREIRA DE OLIVEIRA
A BÍBLIA ATRAVÉS DOS SÉCULOS, ANTÔNIO GILBERTO
TEOLOGIA ELEMENTAR, BANCROFT
PEQUENA ENCICLOPÉDIA BÍBLICA , ORLANDO BOYER






sábado, 13 de outubro de 2012

O que há de errado com a nossa espiritualidade? - Eugene Peterson



                                  

Falar de espiritualidade neste mundo do século XXI é falar de um tema cuja relevância salta aos olhos. Diante de uma sociedade faminta por significado existencial, sedenta pelas coisas da alma humana e cada vez mais curiosa sobre Deus, é fundamental que a Igreja de Cristo não se furte a ensinar e pregar as Sagradas Escrituras. Na verdade, isso sempre foi necessário desde a proclamação do célebre “Ide” – mas há hoje uma urgência contemporânea pela anunciação das boas novas do Evangelho, porque somos cercados por “espiritualidades” que, ignorando a pessoa de Jesus, desenvolvem-se a partir das muitas e variadas experiências de cada um. Sabemos que o Espírito Santo, ao longo de toda a Bíblia, fornece ao homem o mapa da verdadeira espiritualidade. As histórias que ela conta nos convidam a um outro mundo que não o nosso – um mundo maior que nós mesmos. As histórias bíblicas nos convidam ao mundo da criação, da salvação e da bênção de Deus.

Evidentemente, todo o cânon sagrado é um texto integral – mas o evangelho de Marcos, o segundo livro do Novo Testamento, tem certa primazia. Afinal, ninguém nunca havia escrito um evangelho cristão quando Marcos escreveu o dele. Com isso, criou um novo gênero. Sua forma de escrever que logo se tornou fundamental e formativa para a vida da Igreja e do cristão. Isso veio contrastar com a preferência antiga pela criação de mitos, prática que reduzia os humanos a meros espectadores do sobrenatural. Também vai de encontro à predileção moderna pela filosofia moral, concepção que nos torna responsáveis por nossa própria salvação.

A história narrada no evangelho segundo Marcos é o relato verbal da realidade que, como seu assunto – a Encarnação – é, ao mesmo tempo, divina e humana. Ela revela algo que jamais concluiríamos por nossa própria observação, experiência ou suposição; e, ao mesmo tempo, nos envolve, colocando-nos na ação como receptores e participantes, sem jogar para nós a responsabilidade de fazer tudo dar certo. As implicações disso para nossa espiritualidade são enormes, já que a forma, por ela mesma, nos protege das duas principais práticas que levam a pessoa a se afastar do caminho certo: a de viver como espectador leviano dos fatos, exigindo sempre atrativos novos e mais exóticos vindos do céu; ou como moralista ansioso, aquele que toma sobre seus ombros todas as cargas do mundo. A própria forma do texto molda em nós reações que tornam muito difícil sermos simples espectadores ou moralistas. Não estamos diante de um texto que podemos dominar. Pelo contrário – somos dominados por ele.

A espiritualidade é a atenção que damos à alma, ao mundo interior invisível de nossa vida – um mundo que é a essência de nossa identidade, esta alma à imagem de Deus que engloba toda nossa individualidade e glória. A espiritualidade pode parecer uma coisa maravilhosa, mas vinte séculos de experiência cristã diminuíram bastante o entusiasmo que ela outrora provocava. E sua prática não se mostra tão maravilhosa. Olhando para nossa história, não nos admiramos ao verificar que a espiritualidade costuma ser vista com desconfiança, quando não com hostilidade declarada. Isso acontece porque, na prática, e com muita frequência, ela se transforma em neurose. Em nossos dias, temos visto a espiritualidade – ou uma suposta espiritualidade – descambar para o egoísmo, principalmente quando vira mera pretensão.
Mas como isso pode acontecer? A resposta é simples: isso acontece quando nos afastamos da história do Evangelho de Cristo e adotamos a nossa própria experiência, e por que não dizer, a nós mesmos como elemento fundamental e autorizado da espiritualidade. Passamos a fazer a exegese em nós mesmos como se fôssemos textos sagrados. Não jogamos o Evangelho fora; contudo, ele fica na prateleira e pensamos que lhe conferimos honra consultando-o de vez em quando, como uma obra de referência indispensável. Por outro lado, nossos orientadores espirituais nos ensinam que somos seres gloriosos e almas preciosas. Somos levados a acreditar que nosso anseio pela santidade, bondade e verdade é magnífico. Mas a espiritualidade não está em nós mesmos, pois o próprio Deus revelou que ela está em Jesus. Como em tudo nesta vida, espiritualidade é coisa que se aprende – e o evangelho segundo Marcos é um texto didático para se entender o que é a espiritualidade.
Tomamos o texto e lemos a história de Jesus, uma história estranha. Na verdade, o evangelista conta muito pouco do que nos interessa em uma história. Não ficamos sabendo sobre Jesus praticamente nada do que queremos saber. Não há descrição da sua aparência; nada ali é dito sobre sua origem, sobre quem eram seus amigos. Informações sobre a educação que recebeu, ou sobre sua família, são inexistentes. Fica difícil avaliar ou entender uma pessoa sem esses dados. E também há muito pouca referência ao que o filho de José e Maria pensava e sentia, suas emoções e lutas interiores. Embora Jesus seja a pessoa mais citada, o texto é surpreendentemente reticente quanto a ele
A certa altura, porém, entendemos que se trata de uma história sobre Deus e sobre nós. Jesus é a revelação de Deus; então, quando nos defrontamos com ele, encaramos o que há em Deus. A narrativa abrange outros personagens, claro, e são muitos: os doentes, os famintos, as vítimas sociais, os excluídos. Mas Jesus é sempre o centro. Nenhum evento acontece e nenhuma pessoa aparece sem ele. Ali, Cristo subsiste tanto no contexto quanto no conteúdo da vida de todos. A espiritualidade, a atenção que dedicamos à nossa alma, transforma-se quando permitimos que o livro de Marcos dê forma a nossa prática. O texto nos ensina essa percepção: linha após linha, página após página, o conteúdo é sempre o mesmo: Jesus, Jesus e mais Jesus. Nenhum de nós é capaz de fornecer o conteúdo de nossa própria espiritualidade, pois ela nos é concedida por Jesus. O texto não dá margem a exceções.
A morte de Jesus – Lendo o texto do Evangelho conforme o escreveu Marcos, logo descobrimos que toda a história se canaliza para a narração dos acontecimentos de uma única semana da vida de Jesus – justamente a semana crucial da paixão, morte e ressurreição do Filho de Deus. E, dos três eventos, sua morte é apresentada com mais detalhes. Se nos pedissem para dizer com o menor número possível de palavras qual é o conteúdo do livro de Marcos, deveríamos responder: “A morte de Jesus”. A princípio, não parece um conteúdo muito promissor, especialmente para os que procuram um texto que os oriente na vida, capaz de alimentar a alma. Mas é assim. A história possui dezesseis capítulos. Nos oito primeiros, Jesus aparece vivo, passeando sem pressa pelas vilas e caminhos da Galiléia, levando vida às pessoas. De repente, bem na hora em que atrai a atenção de todo mundo, Marcos começa a falar sobre morte. Os oito capítulos finais de seu evangelho são dominados por palavras de morte.

O prenúncio da morte de Cristo assinala também uma mudança de ritmo. A narrativa, na primeira metade do livro, apresenta características de tranquilidade e descreve os movimentos do Mestre em um ambiente quase idílico. Porém, isso muda diante da tragédia anunciada, a partir do momento em que Jesus dirige-se diretamente para Jerusalém, onde seria martirizado. Urgência e gravidade passam a caracterizar a narrativa. Muda a direção, o ritmo, o clima. Jesus é explícito em três ocasiões: ele irá sofrer, será morto e ressurgirá, conforme se lê, respectivamente, em Marcos 8.31; 9.31; e 10.33-34. E acontece a morte, descrita em seus horrores com detalhes e a precisão digna de um arguto observador. Nenhum outro acontecimento da vida de Jesus foi contado com tantas minúcias. Não há como duvidar da intenção de Marcos de deixar bem claro que o enredo, a ênfase e o significado de Jesus residem em sua morte. E o evangelista faz questão de definir este sacrifício como voluntário. Jesus não era obrigado a ir para Jerusalém; fê-lo por sua própria vontade. Explicitamente, concordou com sua própria morte. Logo, não foi um episódio acidental, tampouco inevitável. Ele aceitou a morte para que os outros pudessem receber vida – ou, conforme o texto diz: - Jesus veio para “dar a sua vida em resgate por muitos”.
Sintomaticamente, cada um dos três anúncios explícitos da morte de Cristo é concluído com o anúncio da ressurreição. A história daquele evangelho como um todo, se encerra com o testemunho da ressurreição. Isso não dá menor valor à morte, mas a torna muito diferente do que estamos acostumados a pensar. As ideias de tragédia e procrastinação são as palavras que caracterizam a atitude de nossa cultura diante da morte. Herdamos dos gregos esta visão trágica da finitude humana. Eles escreviam textos primorosos sobre mortes trágicas – vidas ceifadas por obra de forças grandes e impessoais, circunstâncias indiferentes ao heroísmo e esperança do ser humano.
Já a tentativa de procrastinar a morte ao máximo é legado da medicina moderna. Em nossa cultura, a vida é reduzida a batimentos cardíacos, circulação sanguínea, impulsos cerebrais. Como as pessoas só levam em conta sobre a vida o que a biologia pode estudar – sem enxergar sentido, espiritualidade, nem eternidade –, as tentativas de afastar, adiar e negar a morte são cada vez mais intensas. O detalhe é que não houve procrastinação na morte de Jesus. É necessário, portanto, irmos contra nossa cultura, permitindo que o vigoroso relato de Marcos molde nosso entendimento de modo a entendermos nossa própria morte dentro das ricas dimensões e relações da história de Jesus.
O asceta e o esteta – Bem no centro do evangelho segundo Marcos há uma passagem que pode ser considerada o cerne da espiritualidade do texto e consiste de duas histórias. Na primeira, Jesus chama os discípulos à renúncia, quando eles partem para Jerusalém. É a dimensão asceta da espiritualidade. Já o segundo relato, o da transfiguração de Cristo no Monte Tabor, fornece a dimensão estética dessa mesma espiritualidade. As histórias são cercadas, nas duas extremidades, por afirmações da verdadeira identidade de Jesus como Deus entre nós. Pedro afirma: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. No final, uma voz vinda do Céu declara: “Este é o meu Filho amado. Ouçam-no!”. Era o testemunho humano sendo legitimado pela confirmação divina.

Essas histórias possuem uma conexão orgânica, um ritmo binário e uma teologia espiritual única. Elas reúnem os movimentos ascetas e estéticos, o sim e o não que atuam juntos no coração da teologia espiritual. O ascetismo aparece circunscrito nas palavras do Salvador, que são breves e diretas: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8.34). Fica evidente que Jesus vai a algum lugar e nos convida para irmos com ele. É um convite, sim, à renúncia. Sempre há um forte elemento ascético na teologia verdadeiramente espiritual. Seguir Jesus implica em não seguir nossos impulsos, apetites, caprichos e sonhos, pois tudo isso foi danificado pelo pecado. Seguir Jesus significa não seguir as práticas de procrastinação e negação da morte, mesmo em uma cultura que, pela busca obsessiva da vida sob a inspiração de ídolos e ideologias, acaba encontrando uma existência tão restrita e degradada que dificilmente merece o nome de vida. Mas a arte de dizer “não” nos deixa livres para seguir Jesus.

Na monumental obra escrita por Marcos, o esteta aparece ao lado do asceta. É o “sim” de Deus em Jesus. Pedro, Tiago e João o veem transfigurado na montanha, em uma nuvem brilhante, na companhia de Moisés e Elias. Os discípulos viram a beleza da glória do Senhor, e é ela que acabamos por experimentar ao nos aproximarmos do Pai. Há sempre um componente estético forte na verdadeira teologia espiritual. Subir ao monte com Jesus significa deparar-se com uma beleza de tirar o fôlego. Permanecer na companhia dele é contemplar sua glória e escutar a confirmação divina da revelação nele. Aqui está o segredo do Jesus transfigurado. Ele é a forma da revelação, e a luz não cai do alto sobre essa forma, nem vem de fora – antes, brota de seu interior. A única reação adequada a essa luz é manter os olhos abertos para observar o que está sendo iluminado: adoração.
O impulso estético na teologia espiritual relaciona-se a treinar a percepção, isto é, aprender a apreciar o que está sendo revelado em Jesus. Não somos bons nisso, pois o pecado prejudicou nossos sentidos. O mundo, apesar de alardear a celebração da sensualidade, é implacável em anestesiar e esquecer o que é sentir, restringindo a estética ao que se pode encontrar em museus ou jardins. Nossos sentidos precisam de cura e reabilitação para se tornarem adequados a receber e responder às visões e aparições do Espírito Santo de Deus.Nosso corpo, com seus cinco sentidos, não é empecilho para a vida de fé. Nossa sensibilidade não é barreira para a espiritualidade, e sim, o único acesso a ela.
Marcos escolheu mostrar Jesus como a revelação de Deus e fez um relato completo da sua obra na salvação. Somos convidados a participar por inteiro da história de Jesus, e o evangelista nos mostra como fazer isso. Ele não se limita a contar que Jesus é o Filho de Deus; nem a nos dizer que nos tornamos beneficiários de sua expiação. Ele nos convida a morrer a morte de Jesus e a viver sua vida com a liberdade e a dignidade dos participantes. E eis aqui um fato maravilhoso – ficamos no centro da história, sem nos transformarmos nos seus principais protagonistas. Habitualmente, e os crentes sabem bem disso, sempre é perigoso o interesse do indivíduo em si mesmo. A obsessão com as questões da alma fazem com que Deus passe a ser visto como mero acessório da experiência pessoal. É preciso muita vigilância – e a teologia espiritual é, entre outras coisas, o exercício dessa vigilância.
Por isso o evangelho de Marcos é um texto básico para se entender a espiritualidade humana. Suas histórias sobre vida e morte, crucificação e ressurreição, nos mostram e nos ensinam sobre negação e afirmação. Mas não se limitam a isso. Também levam-nos adiante em fé e obediência, para a vida que só se completa, por fim no não definitivo e no sim glorioso do Jesus crucificado e ressurreto.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Rato

                                               



Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote.

Pensou logo no tipo de comida que haveria ali.

Ao descobrir que era ratoeira ficou aterrorizado.

Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:

- Há ratoeira na casa, ratoeira na casa!!



A galinha:
- Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi até o porco e:
- Há ratoeira na casa, ratoeira !
- Desculpe-me Sr. Rato, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar. Fique tranqüilo que o Sr. será lembrado nas minhas orações.

O rato dirigiu-se à vaca e:
- Há ratoeira na casa!
- O que? Ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!
Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira.

Naquela noite, ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima.. A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego. No escuro, ela não percebeu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher...

O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital.
Ela voltou com febre.
Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha.
O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.

Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la.
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher não melhorou e acabou morrendo.

Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.


Moral da História:
Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que quando há uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco. 

O problema de um é problema de todos!

"Nós aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas ainda não aprendemos a conviver como irmãos."