domingo, 2 de dezembro de 2012

O que não faz mais sentido - Josafá Rosendo


                                             


Acho que quase todas as pessoas têm o costume de guardar um amontoado de coisas em algum canto da casa. Imaginam que  podem ser úteis um dia, ou então lembram bons momentos distantes, ou porque simplesmente acham-se incapazes de se livrar delas por causa do fascínio que exercem. Assim, há quem faça coleção de chaves, cartões de aniversário, canetas, cadernos e agendas antigos, ferramentas gastas, etc. Antes que me esqueça, acrescento a essa lista os textos, documentos e recortes de jornais que são as coisas que sou viciado em guardar. Guardo-os com a mais sincera intenção de relê-los um dia. 

Mas o danado é que o espaço vai se apertando, e o tempo se exaurindo na medida em que  o acúmulo anoso dos objetos de nossa devoção se expande, e a gente precisa fazer uma limpeza de vez em quando. Não que um dia o espaço nos falte totalmente, pois o imagino ifinito,  mas porque, à semelhança da memória do computador, quanto mais espaço livre tivermos, mais agilidade teremos na execução de tarefas. Em relação ao tempo, não posso dizer o mesmo, pois o tempo fica mais escasso na proporção inversa em que aumentam as velas em nosso bolo de aniversário. Foi com esse pensamento que resolvi rever todos aqueles textos que guardei ao longo dos anos no fundo da gaveta com a intenção de retomá-los sabe-se lá quando. Passei um por um, apreensivo pela seleção que teria que fazer, determinando o que ficaria e o que iria embora. O resultado foi surpreendente: joguei quase todos fora. Primeiramente porque conclui não haver mais tempo para retomá-los, pois tenho menos dias para gastar e, por conseguinte, preciso focar o que é rigorosamente essencial. Segundo, percebi que a maioria daqueles escritos, que já li com tanto entusiasmo, já não fazia sentido para mim. Ou eu não fazia mais sentido para eles. E pensar que há poucos anos, eu não abriria mão desses textos por nada. Mas agora foi tão fácil jogá-los. Os textos eram os mesmos, dos mesmos autores, sobre aquelas mesmas circunstâncias e temas, mas eu era outra pessoa.

Nossos baús e bagagens não se restringem a coisas apenas. Nós também guardamos pensamentos, sentimentos e emoções que cavaram sulcos profundos na alma. Conservamos deliberadamente lembranças de pessoas e de momentos que não queremos esquecer, porque exercem um fascínio muito grande sobre nosso espírito. Mas semelhante à limpeza que precisamos fazer às vezes em relação às coisas guardadas, há uma necessidade de, vez por outra, nos desprendermos de algumas lembranças, sentimentos e emoções, bagagens que apenas ocupam espaço, visto que não será mais possível retomá-las. E isso também por uma questão de tempo e de sentido. Acredito que toda pessoa já passou pela experiência de despedir-se de um amigo ou de um amor com juras eternas de lealdade, quando houve a necessidade de mudar de uma cidade para outra. Mas o tempo passa e, quando volta, não consegue mais se relacionar como antes, tudo é tão estranho. Isso acontece porque as pessoas mudaram, principalmente por causa do contato de uma das partes com novos ambientes e relações, e torna-se impossível retomar a convivência do jeito que já fora. Já dizia um filósofo que "é impossível pisar no mesmo rio duas vezes". Na segunda pisada, já não se trata do mesmo rio, nem da mesma pessoa.

A mudança do indivíduo tira todas as coisas de sua posição original, alterando toda a realidade à sua volta. E é a partir dessa compreensão que podemos discutir a questão do significado inconstante de tudo o que existe, e do sentido da vida.  A questão sobre o sentido da vida com todas as suas nuances é muito abordada na psicologia. A existência é uma roda que gira o tempo todo, tirando e trocando tudo de lugar. E neste vai-e-vem, tudo o que existe troca de papel, assume novas roupagens e muda de significado para os elementos relacionados. Logo, na dinâmica da vida, o que um dia foi importante pode deixar de sê-lo, e o que era irrelevante pode vir a assumir valor fundamental, mas tudo dentro de um processo que  quase nunca acontece de forma clara para nós. É necessário, portanto, discernimento para avaliar, de acordo com o momento, qual o grau de importância que não somente as coisas, mas também as relações ainda têm para a vida. Somente assim, podemos nos desprender de tudo que já não tem sentido para propiciar uma vida fluida e feliz, e buscar novos caminhos, novos significados, num exercício de seleção que evitará o acúmulo de resíduos que servem apenas para ocupar espaço e obstruir o sistema, causando preocupações desnecessárias.  Ouvi de uma professora que " a gente se agarra a sentidos fixos para não dar conta da angústia". Penso que agarrar-se a sentidos fixos é não reconhecer que algo, outrora muito significativo, pode estar destituído de importância hoje.

Nem sempre temos lucidez  na avalição daquilo que nomeamos de um problema.Por outro lado, nem sempre o que reputamos por um bem é, na verdade, um bem. Li em algum lugar que o guardião dum mosteiro zen-budistão morreu e foi preciso encontrar um substituto para ele. Assim, o grande mestre convocou todos os discípulos para determinar quem seria o novo sentinela. Então, com muita tranquilidade, falou: "Assumirá o posto o primeiro monge que resolver o problema que vou apresentar". Em seguida, colocou uma mesa magnífica no centro da sala em que estavam reunidos e pôs sobre ela um vaso de porcelana muito raro com uma rosa amarela de extraordinária beleza a enfeitá-lo. Então disse: "Aqui está o problema!" Os presentes ficaram olhando a cena sem entender o significado. De repente, um dos discípulos aproximou-se da mesa, pegou resolutamente o vaso e o espatifou no chão. Tão logo o discípulo retornou ao seu lugar, sob o olhar perplexo dos outros, o mestre disse: "Você é o novo guardião do castelo." Os demais discípulos não conseguiam entender: "Nós não estamos entendendo nada. Ele quebrou o vaso!" Ao que o mestre respondeu: "Eu disse que proporia um problema. E não importa qual a aparência de um problema, o grau de conforto que proporcione. É um problema e, como tal, precisa ser eliminado. Pode ser que se trate de uma mulher maravilhosa, um homem espetacular, um amor ou amizade que não fazem mais sentido, mas que insistimos neles por uma questão de conveniência".

Eu acrescentaria às palavras do mestre que podem ser lembranças vívidas de momentos que foram muitos bons, mas que agora deveriam ser páginas viradas, ou o apego a coisas que não têm mais o mesmo valor e significância de outrora e, portanto, prender-se a elas é interromper a dinâmica própria da vida e estagnar-se.

Finalizando, para uma vida feliz, precisamos entender que é próprio das coisas e das relações, na roda do tempo, adquirirem novos significados. Desse modo, umas deixam de fazer sentido para nós, enquanto que outras, outrora sem importância, passam a fazer sentido. Nós mudamos o tempo todo, alterando a compreensão e visão que temos de tudo, por isso, todo mundo precisa de vez em quando desprender-se das coisas, relações e comportamentos que deixaram de fazer sentido para a vida, que já foram muito importantes um dia, mas que, com o passar dos anos, foram destituídos do significado inicial e agora são apenas entulhos impedindo a absorção de novas experiências que resultem em novas possibilidade.

Cara, é preciso ter desprendimento e humildade.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

IGREJA ELIM - MINISTRANDO NO CULTO EVANGELÍSTICO NA PRAÇA

















Cristo é mais - Ricardo Quadros Golvêa



                                  
Há quem pense que o problema de muitos evangélicos hoje seja o seu fanatismo religioso, sua devoção extravagante, sua religiosidade exacerbada. Penso que há aqui um engano, uma interpretação superficial da questão. Até porque tal devoção pode ser amor próprio disfarçado (Cl 2:23), tal religiosidade pode ser um culto ao próprio ventre (Fp 3:19), e tal fanatismo pode ser mera idolatria (Is 1:13-17).
O verdadeiro problema é justamente o oposto disto. É o seu menosprezo para com a pessoa de Cristo. É a maneira reducionista de muitos evangélicos perceberem a Cristo. É a construção de uma espiritualidade neo-pagã em que a pessoa de Cristo é secundária (onde deveria ser central), instrumentalizada em um discurso cujo centro é o consumo de bens espirituais (Mt 6:24,31-32). O problema de muitos evangélicos é não perceber o tamanho do Evangelho de Cristo, e quem de fato Cristo é.
Há, no discurso evangélico, uma presença muito clara do nome de Jesus, mas uma presença que beira à magia, já que se trata de um uso instrumental e ritualístico do nome de Jesus, e que beira à idolatria (pasmem! uma idolatria de Jesus!), pois o nome de Jesus é apresentado desvestido e desencarnado da pessoa de Jesus Cristo, de seu ensino e de seu significado teológico como redentor da humanidade (Mt 7:21).
Quando a Bíblia nos ensina a orar “em nome de Jesus Cristo” (1Co 5:4; Ef 5:20), isso não é uma fórmula mágica que carrega em si poder para realizar milagres. A expressão significa que os cristãos são representantes de Cristo na terra, e devem, portanto, falar em nome de Cristo, fazendo a oração que o próprio Cristo faria.
Jesus ficou reduzido a isso em boa parte do discurso evangélico: uma palavra mágica, um ícone, um significante cujo significado se tornou propositadamente difuso. Com isso, foi-se esquecendo do verdadeiro Jesus Cristo, o mestre a quem se deve seguir (Mt 11:28-29; Cl 2:8), dos seus ensinos de amor por palavras e atos, da sua pregação sobre o desprendimento e a humildade (Mt 6:25-34; Lc 22:26; Jo 13:1-17), de seu esvaziamento no serviço (Fl 2:5-8).
De fato, há muita extravagância religiosa entre os evangélicos, que vai das coreografias sem profundidade às expressões faciais agônicas; dos discursos inflamados sobre cura e poder à rigidez moralista das propostas de conduta cerceadoras da liberdade em nome de um pudor muito distante daquilo que a Bíblia indica (Mq 6:8; Cl 2:20-23); do dogmatismo que faz de Cristo um mero item doutrinário ao sectarismo individualista que nos faz esquecer as dimensões sócio-políticas da redenção no aqui e agora.
Cristo é mais! O que Cristo pode fazer pelos seres humanos é muito mais do que está sendo muitas vezes apresentado pelos evangélicos e aos evangélicos. Não se limita aos benefícios materiais e curas, mas a uma vida tão plena de sentido e de senso de vocação que os bens materiais e a saúde deixam de ser primordiais.
Cristo é mais! Foi-se esquecendo das dimensões mais profundas da redenção que há em Cristo. Esta redenção ficou reduzida à garantia de uma vida feliz após a morte, à esperança materialista de um céu de recompensas luxuosas (devido a interpretações literalistas dos símbolos bíblicos: Ap 2:10; 21:11), esperança que não indica nenhum desapego, mas antes ressentimento e inveja em relação aos ricos e poderosos. A redenção em Cristo já não é percebida como o resgate de uma vida diferenciada, uma vez que dotada de sentido e valor aqui e agora, na missão, no serviço, no convívio amoroso e no desfrutar da criação divina.
Cristo é mais! O individualismo da modernidade nos fez crer que o dom de Cristo se limitava ao que pode fazer por cada pessoa enquanto indivíduo, deixando de lado as dimensões sociais do evangelho, e tudo que ele significa para a nação (Sl 33:12): um futuro melhor para nossos filhos, uma cultura calcada na integridade e na justiça, no amor e na sabedoria, a construção de uma sociedade que vive de acordo com os valores do Reino de Deus (Mt 28:20). Em vez disso, vemos que as preocupações éticas e a preparação para a cidadania estão descartadas da pregação, e fora do ensino religioso nas igrejas (Is 1:10-17).
Tampouco pode ser Cristo reduzido a mero elemento do sistema doutrinário, como se minha fé incluísse, entre outras, doutrinas acerca da pessoa de Cristo e acerca de sua obra de salvação. Cristo é mais! Ele é o centro de nossa fé. É nele que cremos, em sua vida conosco, na sua presença (Mt 28:20; Jo 14:16-18) e no seu pastoreio (Sl 23:1; Jo 10:11). Ninguém deve se considerar salvo em Cristo porque subscreve à doutrina da salvação pela graça mediante a fé. Mera aceitação de doutrinas é obra meritória de cunho intelectual e ritualista (Rm 3:20,28). Somos salvos pela graça divina mediante a fé (Ef 2:8-10) na possibilidade de estarmos unidos a Cristo em sua morte e em sua ressurreição (Cl 2:12; 2Tm 2:11), uma realidade a ser vivenciada aqui e agora!
Cristo é mais! A redenção em Cristo não se limita ao perdão da culpa dos pecados, à nossa justificação pela união com Cristo em sua morte na cruz, mas se estende à esperança da glória (Ef 1:18; Cl 1:27), à santificação pela presença de Cristo em nós (Rm 6:22; Hb 12:14), que nos torna seus discípulos e imitadores (1Co 11:1; 1Ts 1:6). A fé protestante está centrada na vida do Cristo ressurreto (1Co 15:14,19; Rm 6:5). Não somos convidados a viver, em Cristo, como penitentes! Antes, a uma vida abundante (Jo 10:10)! Nossa união com Cristo nos leva a viver a sua vida, nos eleva para perto de sua própria estatura espiritual (Ef 4:13), promete nos tornar co-participantes da natureza divina (2Pe 1:4), e nos convida a viver desde já possuídos pela glória de Deus (2Co 3:18) e entusiasmados pelo Espírito Santo (Ef 5:18).
Cristo é mais! Na verdade, é muito mais do que pensamos ou podemos imaginar. Temos que esperar sermos por ele surpreendidos (Ef 3:20), como um leão que não pode ser adestrado, que é bom, mas que não é domesticado (como sugere C. S. Lewis acerca de Aslam), como um tigre que subitamente coloca suas patas dianteiras sobre nosso peito exigindo-nos a nossa atenção para seu poder e sua beleza (como sugeriu Thomas Howard em Christ the Tiger). Por mais que tentemos enlatar a Cristo, condicioná-lo, fazê-lo nos servir, qual gênio da lâmpada, ele nos escapará do controle e nos surpreenderá, porque Cristo é muito mais!
Lamento pelas multidões de cristãos que se esqueceram, que se iludiram, que se deixaram levar por pregações acerca de Cristo e em nome de Cristo que o reduziram a algo ridiculamente menor do que ele de fato é, a um simulacro, um instrumento religioso a serviço de igrejas que são também simulacros de igreja cristã, e que, por esta genuína apostasia (Lc 18:8; 2Ts 2:3), deixam de ser igreja de Cristo para serem igrejas do anticristo, pois o anticristo nada mais é que o simulacro de Cristo (Mt 24:24), uma abominável desolação!
Lamento principalmente pela perda do verdadeiro Jesus Cristo, que pode dar sentido à vida, que pode curar a nação, que pode resgatar a humanidade em direção da sua própria glória, a glória da vida do amor de Deus. Estamos trocando a Cristo por simulacros, pois, ao reduzi-lo a fórmulas mágicas, eclesiásticas ou teológicas, ele se torna menos do que ele é: a presença viva, aqui e agora, da pessoa que me convida a segui-lo, a encarnar o seu próprio Espírito, e abraçar o projeto supremo de viver, nele, a vida eterna e abundante de Deus.
  
Autor :
Ricardo Quadros Gouvêa é pastor da Igreja Presbiteriana do Bairro do Limão, em São Paulo, professor de teologia da Fathel Faculdade Theológica, da Faculdade Unida de Vitória-ES e do programa de pós-graduação em ciências da religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo.