domingo, 17 de novembro de 2013

Diferença entre o teimoso e o perseverante - Josfá Rosendo

                                 
Um amigo me contou recentemente a diferença entre o teimoso e o perseverante. Ele sentou-se comigo e mandou preparar um suco natural de laranja e , enquanto sugávamos o líquido fresco naquela tarde quente, ele dizia que tanto o obstinado quanto o perseverante tem um alvo, ou seja, um lugar predeterminado para chegar, mas a grande diferença é que o perseverante considera as várias possibilidades para atingir o objetivo, enquanto o teimoso enxerga apenas uma possibilidade. Achei muito interessante e fui para casa pensando sobre o assunto. 

Mais tarde, ensinando aos crentes de minha igreja, fiz referência às palavras do amigo para falar sobre o vasto campo de possibilidades que a vida proporciona, argumentando que muitos são os trajetos que podem conduzir ao mesmo alvo. Acrescentei que para o perseverante, o trajeto e o alvo são coisas diferentes, porém para o teimoso, o percurso e o alvo são a mesma coisa. Por isso que há momentos em que o primeiro muda a rota, apesar de persistir no mesmo alvo, pois sabe que mudança de rota não significa necessariamente mudança de objetivo, enquanto que o segundo não ver a possibilidade de mudar de uma coisa sem alterar a outra.

A gente só precisa de discernimento para perceber que alguns meios que usamos para atingir certo fim atrasarão muito nossa chegada ou então a inviabilizará, e então ter desprendimento e coragem para buscar meios alternativos mais viáveis que levarão ao mesmo lugar, desde que estes meios sejam legítimos. O apóstolo João, no capítulo cinco de seu evangelho, registra a história de um paralítico que, há 38 anos, esperava um milagre á beira de um tanque chamado Betesda(casa de misericórdia). Havia na região uma história segundo a qual, um anjo descia em certo tempo e agitava aquelas águas, sendo que a primeira pessoa que mergulhasse no tanque, após a agitação das águas, seria curado de qualquer enfermidade. Não sabemos com que frequência o anjo descia, ou se descia de fato, o que temos de concreto é que aquele paralítico nunca conseguiu a graça de entrar nas águas agitadas e receber a cura, porque sempre que ele tentava, descia alguém antes dele, para sua tristeza, e mais um período indefinido de espera começava.  

O paralítico de Betesda concentrou toda sua vida na expectativa de um dia conseguir a cura. Em sua cabeça, da cura dependia sua felicidade, e das águas de Betesda dependia a cura. Vejam como ele estabeleceu um fluxo delimitado para sua vida.  Era uma pessoa extremamente centrada naquela única possibilidade, a ponto de se tornar uma pessoa distraída em relação a toda a vida que se passava ao redor. Uma pessoa distraída não é alguém sem objetivo ou disperso, trata-se uma pessoa extremamente focada em um objetivo, a ponto de todo o resto desaparecer do campo de visão. É assim que um aluno em dias de provas e o estudante que vai prestar o concurso público esquecem até a senha do banco que usa há anos, ou a noiva que, com a proximidade da data do casamento, esquece a panela no fogo.

João conta que Jesus se aproximou daquele homem e, sabendo que estava assim há trinta e oito anos, perguntou-lhe se queria ficar curado. Mas o paralítico estava tão focado nas águas de Betesda, ou seja, tamanha era sua distração ao que se passava à sua volta, que ele não conseguiu atentar para a graça no olhar daquele que falava com ele e que lhe oferecia cura. Ele logo se queixou, primeiro de que não tinha ninguém por ele, segundo, que fosse alguém que lhe atirasse nas águas. Como já fizemos referência acima, ele estabeleceu um fluxo: a água é agitada - alguém, apressadamente, o mete no tanque e ele recebe a cura. Tudo o que fugisse disso não mereceria sua atenção. Ele não considerava nenhuma outra possibilidade de atingir seu objetivo, além das águas de Betesda, nem mesmo este encontro privilegiado com o Filho de Deus. Jesus o curou por misericórdia.

Assim acontece com muitas pessoas. Elas não conseguem separar o alvo que estão buscando do caminho em que estão trilhando, e mesmo que os obstáculos daquele caminho tornem-se intransponíveis para os recursos que possuem, teimam em prosseguir, porque não conseguem enxergar as múltiplas vias que a vida proporciona para se chegar a um mesmo lugar, possibilidades, aliás, muito bem exploradas pelo perseverante que, ao perceber que a estrada em que está não faz mais sentido, busca uma trilha, vai ampliando sua rota até atingir o alvo de sua vida. Há muitos caminhos para o mesmo destino e ,desde que sejam legítimos, podemos escolher o mais viável.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O Novo Testamento

                                                            


O Novo Testamento é o conjunto de livros onde está registrado o estabelecimento e o caráter dos novos tratados de Deus com os homens por meio do Senhor Jesus.  O Antigo Pacto envolvia uma revelação da santidade de Deus num justo padrão de lei, que, os que a recebessem, eram solenemente admoestados a guardar.  O Novo Pacto traz a revelação de Deus no Filho, completamente justo que da aos que o recebem a revelação, o poder de se tornarem filhos de Deus, tornando-se justos (Jo 1.12).  O conteúdo do Novo Testamento consiste na revelação deste novo pacto por meio das palavras escritas de Jesus Cristo e dos seus seguidores. Compreende 27 obras distintas, de nove autores diferentes. Estes documentos foram escritos num espaço de mais de meio século, provavelmente nos princípios de 45 d.C. até cerca do ano 100 d.C. As alusões históricas que nele ocorrem dizem respeito a todo o primeiro século e o seu fundo de pensamento cultural recua até ao século IV ou V a.C.

1     O CÂNON DO NOVO TESTAMENTO
Nos primeiros dias da vida da igreja primitiva, não havia nenhum livro dos quais hoje conhecemos no Novo Testamento. Os cristãos primitivos liam em suas reuniões alguns livros do Antigo Testamento, especialmente aquelas passagens que falam do advento do Messias, cumpridas na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Sendo assim, a igreja primitiva não tinha uma teologia bem definida como temos hoje em dia. Com o trabalho dos autores do Novo Testamento a igreja foi gradativamente dando prioridade a leitura dessas novas obras sagradas. Como a igreja estava espalhada em várias partes do mundo daquele tempo (África Ásia e Europa) e a maioria dos livros que iam sendo escritos eram destinados a grupos específicos do cristianismo, que estavam espalhados em várias partes do mundo, esses grupos não tinham imediatamente conhecimento de todos esses livros que foram surgindo. Mas com o passar do tempo, esses livros foram circulando e sendo conhecidos pela igreja de modo geral. Mesmo não sabendo a data exata em que todos os livros foram escritos, nem seus verdadeiros destinos, podemos afirmar que no final do primeiro século todos eles já haviam chegado em seus respectivos destino. No entanto, nem todos esses livros se tornaram conhecidos por todos os cristãos logo de inicio, ao contrário disso, algumas obras apócrifas como evangelhos e epistolas, circulavam durante o segundo século e foram aceitas por alguns grupos. Em face de tal situação se pergunta que critérios presidiram a aceitação de uns a rejeição de outros? De acordo com que princípios foram os quatro evangelhos, Atos, as treze epistolas de Paulo, as epistolas universais e o Apocalipse reunidos para compor o Novo Testamento, enquanto que outros livros de idade quase igual foram excluídos? O problema do cânon do Novo Testamento reside nessas perguntas. Mas antes de entrarmos nessa questão veremos o conceito de cânon.

2.1 DEFINIÇÕES ETIMOLÓGICAS DE CÂNON
A palavra cânon é latina e significa cana. Essa palavra vem do termo grego Kanon, que significa regra ou vara. Etimologicamente falando, esse termo vem de empréstimo da cultura semítica para referir uma planta que conhecemos com o nome de junco. Na antiguidade, essa planta era utilizada tanto para medir como para pautar. Sendo assim, a palavra cânon passou a ter o sentido de regra ou pauta. No decorrer do tempo, essa palavra passou a ter o significado formal de lista ou tabela.  Durante os três primeiros séculos, essa palavra passou a ser usada no âmbito da igreja para designar o conteúdo doutrinário e ético da fé cristã. E somente por volta do século IV é que ela passou a ser utilizada para listar os livros bíblicos, considerados inspirados por Deus, tanto do Antigo como do Novo Testamento. Atualmente, o uso predominante dessa palavra é para designar a coleção completa de todos os livros da Bíblia, em cuja coleção não se pode mais adicionar nem tirar nenhum livro. Sendo assim, o cânon da Bíblia, considerando tanto o Antigo como o Novo testamento, é uma obra completa e acabada. Portanto, a palavra cânon, por extensão, trás o significado de regra ou padrão, ou seja, nossa fé e conduta devem ser padronizadas nos escritos bíblicos, sendo assim a ação ética e espiritual nos faz ver que os livros canônicos são diferentes dos demais. Toda a literatura pode registrar o pensamento humano. Algumas obras podem influenciá-lo profundamente, mas os livros do Novo testamento o transformam. O seu poder constitui uma boa prova da sua inspiração.

2.2 O PODER TRANSFORMADOR DO NOVO TESTAMENTO
Os escritos do Novo Testamento não constituem só leituras proveitosa, são também potentes e dinâmicos. O seu efeito moral é demonstrado pelo seu poder dentro da igreja cristã. Se bem que não se pode dizer que cada membro da igreja primitiva tivesse um exemplar de bolso do Novo testamento para estudo assíduo. Pode se demonstrar que os dirigentes o conheciam e o utilizavam onde que a sua mensagem fosse proclamada e recebida. A igreja expandia-se e operava uma limpeza moral na sociedade. Nem todos os cristãos professos do primeiro século em diante tinham caráter imaculado, nem tão pouco a igreja se mostrava sempre isenta do mal. Apesar desses fatos, entre os padrões morais do paganismo e os da igreja do Novo Testamento havia um grande abismo: surgiram o amor, a pureza, a humildade, a verdade e muitas outras virtudes que mal existiam no paganismo. Por muito frouxamente que os cristãos seguissem os ideais que caracterizavam, distinguiam-se dos pagãos que os cercavam graças ao poder da verdade do Novo Testamento. As provas da mensagem divina e do poder moral desses livros não podem ser aplicados com sucesso por um único individuo numa esfera limitada, para que se não argumente que a dinâmica do cânon era apenas o efeito fortuito produzido pela reação acidental tempo-temperamento. Quanto ao testemunho interno das próprias obras e o testemunho externo daqueles que as conheciam e utilizavam, são unânimes em mostrar que elas provêm de Deus. Sendo assim, tornam-se mais seguros os critérios de canonicidade.

2.3 A ESCOLHA DOS LIVROS CANÕNICOS
A decisão final sobre o que devia e o que não devia ser introduzido no cânon não se limitava de forma arbitrária a uma só pessoa ou a um só grupo local da igreja cristã. Essa decisão nasceu gradativamente como o desenvolvimento de um corpo em formação. A separação entre livros canônicos se deu através de uma ação lenta e espiritual. Nesse caso podemos dizer que essa ação foi alçada pelo poder do Espírito Santo de Deus no desenvolvimento da igreja cristã. Não foi a igreja quem estabeleceu o cânon; a sua participação nesse processo foi tão somente de reconhecê-lo. Acrescentamos ainda, que no sentido mais amplo, nenhum concilio eclesiástico poderia criar um cânon, visto que a inspiração é a qualidade essencial de canonicidade, portanto nenhum grupo ou concilio podia insuflar inspiração em obras já existentes. Tudo o quanto os concílios podiam fazer era dar sua opinião acerca dos livros considerados inspirados e dos que não eram e, depois, deixar que a história justificasse ou invalidasse o seu veredicto.

2.4 RESUMO HISTÓRICO DA FORMAÇÃO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO
No inicio do segundo século, todos os livros que atualmente fazem parte do Novo Testamento já haviam chegado ao seu destino, mas nem todos os cristãos dessa época tinham conhecimento de todos esses livros, visto que a circulação universal desses livros se deu através de um processo bastante lento. No segundo século, alguns livros, atualmente considerados apócrifos, eram aceitos em alguns igrejas como obras inspiradas por Deus. Durante o tempo dos apóstolos, algumas das epistolas de Paulo e um ou mais evangelho já eram aceitos como escrituras Sagradas. Já no começo do segundo século de modo geral, ainda não universal, treze epístolas de Paulo eram recebidas como escrituras Sagradas, como também o livro de Apocalipse, totalizando vinte livros ou mais.
Durante o segundo século, eram aceitos quase universalmente todos os 27 livros do Novo Testamento, com exceção epistola de Tiago. Contudo alguns aceitavam essa epistola também. Orígenes (254 d.C) foi o primeiro dos pais da igreja a aceitar a epistola de Tiago, mas também aceitava a epistola de Barnabé e o Pastor Hermas, pelo que seu Novo Testamento constava 29 livros. No século IV d.C. chegou-se a fixação quase universal do cânon do Novo Testamento, tal como existe hoje em dia. Os concílios, tanto os antigos como os da idade média, em geral, aprovaram o cânon dos 27 livros, tal como os conhecemos na atualidade.

2.5 OS PRINCÍPIOS OBSERVADOS PARA A CANONIZAÇÃO
Os livros do Novo Testamento não foram canonizados aleatoriamente. Sendo assim, o processo de canonização foi feito dentro de alguns princípios.

1.    Deveria ter Circulação e aceitação universal pela maior parte da liderança da igreja: Alguns livros não foram aceitos por falta de circulação na igreja universal, visto que circulavam somente em focos isolados da cristandade daquele tempo; outros, apesar de ter esse mesmo problema foram aceitos, embora bem mais tarde.
2.    Autoria deveria ser dos apóstolos ou dos discípulos dos apóstolos: Dentre os apóstolos, temos as epistolas de Paulo, de Pedro, o evangelho de Mateus e o de João. Dentre os discípulos dos apóstolos, temos o evangelho de Marcos, de Lucas, o livro de Atos, e possivelmente a epistola aos Hebreus, etc.
3.    Os livros deveriam concordar com a tradição e a doutrina ensinada pelos apóstolos: Lucas, Atos, Apocalipse e II Pedro. Também foram rejeitados os escritos ridículos ou fabulosos. Entre esses podemos enumerar a maior parte dos livros apócrifos, o evangelho de Tomé, o de André, os Atos de Paulo, o Apocalipse de Pedro, etc. Houve rejeição de literaturas que visavam propagar heresias, como o evangelho de Tomé, diversos outros evangelhos, epístolas falsas e apócrifas.

2.6 O ANTIGO TESTAMENTO BASE DE APOIO PARA O NOVO TESTAMENTO
O Antigo Testamento, que forneceu o impulso criador de um Novo Testamento, a vida e as palavras do Senhor Jesus, e, em consequência, a necessidade de criar uma autoridade do Antigo Testamento; a nova religião cristã, de criou a necessidade de mais Escrituras além das Escrituras judaicas, para formar a base da nova revelação; os apóstolos, primeiros grandes lideres da nova fé revelada, os quais com seus livros e epístolas, que criaram os cânones primitivos e uma nova autoridade na igreja primitiva e os concílios da igreja primitiva e medieval. Depois de alguns séculos de desenvolvimento, o cânon do Antigo Testamento foi finalmente estabelecido antes do fim do século 1 a.C. Grande parte da congregação judaica aceitava diversos livros apócrifos, pelo que não havia opinião unânime sobre o cânon, do Novo Testamento. A verdade é que então já existia o fato de comunidade religiosa que compilavam lista de livros dotados de autoridade religiosa. Aqueles que estudam a história e a literatura dos povos antigos notam que todos esses povos contaram com sua literatura sagrada.

Os romanos contavam os escritos Sibilinos, os gregos tinham os escritos de Homero, de Musaio e de Orfeu. Os egípcios colecionaram os 42 livros de Hermes, o livro dos mortos e outros mais. Por semelhante modo, a nova religião cristã sentiu a necessidade de contar com uma fonte escrita de autoridade, que servisse de base à fé e à prática cristã. Não queremos dizer, com isso, que as novas Escrituras não usufruíram da orientação e da inspiração do Espírito Santo, mas é obvio que a formação do cânon sofre influências da esfera humana também. Igualmente é claro que nessa esfera humana, Deus usa indivíduos e circunstâncias para efetuar suas obras e sua vontade. Assim é que a igreja primitiva aceitava os livros do Antigo Testamento como dotados de autoridade religiosa e de inspiração divina. Esses livros formaram o cânon mais primitivo da igreja cristã, embora fique evidente que nesses livros, estavam ausentes determinados ensinos que eram os ensinos distintos do cristianismo, emanados de Cristo ou dos apóstolos. Portanto, os livros que continham as palavras de Jesus e dos apóstolos facilmente foram aceitos como parte do cânon nas Escrituras. Houve um processo longo e complexo antes que todos os livros que hoje temos no Novo Testamento constituíssem (individual ou coletivamente) o Novo Testamento. Neste encontramos grande número de citações a alusões tomados por empréstimo do Antigo Testamento. Também vemos que os autores do Novo Testamento aceitaram a ideia de que Jesus era o Cristo prometido no Antigo Testamento, pelo que os profetas do Antigo Testamento são, ao mesmo tempo, profetas da fé cristã. Isto feito, para formar a sua Bíblia, o cristianismo fez uma ligação entre as antigas e as novas revelações divinas. Dessa maneira é que se estabeleceu a base histórica do cristianismo. Pode se dizer, por conseguinte, que o Antigo Testamento não foi somente o precedente que exerceu influência na formação de um Novo Testamento em forma de documento escrito, mas também que exerceu notável influência no caráter e nas ideias dessa nova coleção de livros sagrados.

2.7 A INFLUÊNCIA DE JESUS CRISTO NA ESCOLHA DOS LIVROS
Nunca homem algum falou como Jesus. Ninguém jamais viveu como ele. Considerando sua vida e suas palavras, achamos não somente uma explicação para a existência de um Novo Testamento, mas também entendemos que seria impossível que, depois da vida de um homem assim, não tivesse sido escrito muitos livros acerca dele. O sentido e a ilustração desse fato pode ser observado pelo leitor, na existência não só do Novo Testamento, mas também na existência dos livros apócrifos do Novo Testamento, porquanto muitos “evangelhos”, “Atos e epistolas”, foram escritos por diversos indivíduos, descrevendo a vida dos doze apóstolos ou os cristãos antigos. Em Lc 1.1-3, mostra que muitos escreveram sobre Cristo e suas palavras, e que o próprio Lucas usou parte desses livros como base do evangelho que escreveu. Dizendo isto, porém, não queremos afirmar que Lucas usou livros “apócrifos”, esses livros que Lucas usou são desconhecidos hoje em dia, com exceção do evangelho de Marcos. Devemos notar que a vida e as palavras de Jesus não deixaram de ser observadas pelo mundo, e que até hoje o mundo continua a observá-las, e muitos continuaram escrevendo a respeito do assunto. Foi apenas natural, portanto, que parte das seções aceitas como “escrituras sagradas” relatassem as palavras de Jesus e descrevessem a sua vida. Esses livros foram designados desde o principio pelo nome de “evangelho”. Mas houve outros “evangelhos” que foram rejeitados.

2.8 A INFLUÊNCIA DA NOVA RELIGIÃO CRISTÃ
O cristianismo teve por berço o judaísmo, mas desde os seus primórdios, os novos elementos de Cristo e dos apóstolos exerceram grande influência sobre os cristãos. Mui dificilmente um judeu estrito aceitaria os ensinamentos de Cristo sobre a lei das cerimônias, sobre o divórcio, etc., mas o mais intragável seria aceitar as declarações de Cristo sobre sua própria pessoa, ou seja, a sua divindade. Jesus mesmo disse: “edificarei a minha igreja”. Jesus, tal como Lutero, foi separado da organização religiosa, que estava nas mãos das autoridades religiosas da época, e, tal como o mesmo reformador, logo contou com uma igreja estabelecida em seu nome. Nota-se, igualmente, que nas epistolas dos apóstolos desde o principio penetraram elementos não-judaicos. Apesar do fato de que, a princípio, o povo cristão tivesse permanecido no seio das sinagogas judaicas, quando Cristo ressuscitou dentre os mortos, já eram notadas diferenças entre os israelitas e os cristãos. A principal diferença era feita pelo próprio Cristo. O Senhor Jesus foi mais do que um reformador; Ele é o Deus-homem e, com a ressurreição, provou ser o primeiro homem imortal, tornando-se, dessa maneira, o padrão da vida e do destino de todos os cristãos. Essas explicações se encontram nas palavras de Jesus e dos apóstolos. É natural, pois, que a nova religião tivesse adotado os livros e as epístolas que continham essas diferenças como suas “Escrituras Sagradas”. Pode-se dizer, também, que bastava a existência da nova religião para que se impusesse a existência de novas “Escrituras”, que servisse de base à nova religião revelada.

2.9 A INFLUÊNCIA DOS APÓSTOLOS E DOS PAIS DA IGREJA
Não há que duvidar que as epístolas de Paulo, como as dos demais escritores sagrados, apresentam matérias que eles acreditavam ser de inspiração divina. Por muitas vezes Paulo fala das revelações que recebeu, dando a entender que as crenças ali apresentadas não eram propriamente suas. (Gl 1.8-11; Ef 1.8-11; 1 Co 15.51; 2 Co 12.7-13) Bem cedo muitos denominaram as epístolas de Paulo de Escrituras (1 PE 3.15-16, em combinação com 1.21). O autor do livro de Apocalipse tinha como indiscutível que seu livro seria considerado parte integrante das Escrituras Sagradas (Ap 22.19-20). Outro argumento que mostra que já no tempo dos apóstolos as suas epistolas já exerciam grande influência e eram extremamente usadas, são os seguintes: Paulo solicitava que as igrejas trocassem de epístolas (Cl 4.16). Certas epístolas mostram grande cuidado em sua preparação, como as epístolas aos Romanos e aos Hebreus. É impossível que os autores dessas epístolas pensassem que suas obras seriam lançadas no lixo pelos seus destinatários. O autor do livro de Apocalipse mostra claramente que ele queria que a igreja lesse, cresse e usasse o seu livro (Ap 22.19). Não é possível que Marcos tivesse composto seu livro, contando a história de Jesus Cristo, o Filho de Deus, pensando que a igreja haveria de lê-lo apenas por uma vez, para em seguida jogá-lo fora. Não é provável que Lucas tivesse efetuado tanto preparo e pesquisa para escrever seu livro a um oficial do governo romano com a ideia de que os próprios cristãos logo jogaria fora essa magistral obra histórica. Aquele que lê o Novo Testamento pode sentir o forte propósito que seus leitores tiveram de estabelecer, comunicar e glorificar a mensagem da nova religião revelada. Dificilmente alguém poderia aceitar a ideia de que isso era fruto de um impulso momentâneo, sem qualquer grande anelo ou finalidade. O fato que Mateus e Lucas usaram o evangelho de Marcos como alicerce de seus próprios livros, mostra que confiavam na veracidade da narrativa apresentada por Marcos. Assim sendo podemos ver como a influência dos próprios apóstolos e de outras autoridades da igreja primitiva serviu de importante fator na formação do cânon do Novo Testamento. Além das influências apostólicas, podemos destacar também a influência dos Pais da Igreja, tais como, Hirineu de Leão, Justino o mártir, Clemente, Hipólito de Roma, Inácio, Policarpo, Tertuliano de Cartago, Clemente, Orígenes de Alexandria, etc... Todos estes influentes líderes cristãos, entre outros, mesmo antes de ter sido definido os 27 livros do Novo Testamento, já mencionavam muitos deles em suas pregações e ensinos e também reconheciam a autoridade de inspiração divina, mesmo que às vezes houvesse divergência entre eles referente a alguns livros em particular. O grande historiador Eusébio também contribuiu para a formação do cânon como hoje o conhecemos, pois as opiniões mantidas pela igreja, em geral, até o século IV. d.C se refletiam no resumo preparado por ele que é considerado o pai da história eclesiástica. Ele dividiu a lista em três porções: livros reconhecidos: eram os que ele via como inspirados; livros discutidos: eram aqueles como o Apocalipse que devido ao seu rico conteúdo simbólico era difícil de interpretar e os livros espúrios: eram aqueles que posteriormente não entraram no cânon e este historiador já os via em desacordo com o restante do Novo Testamento que hoje temos.

2.10      A INFLUÊNCIA DOS CONCÍLIOS
Os concílios também exerceram grande influência na formação do cânon, mas tão somente tiveram a função de declarar a opinião geral das igrejas, em diversas partes do mundo, servindo, por isso mesmo, para consolidar e oficializar essa opinião. Os concílios eram marcados pela presença de representantes da igreja. Esses representantes vinham de suas respectivas regiões, ou seja, em qualquer parte do mundo onde havia uma igreja organizada, de lá vinha seu representante. Nos concílios eram tratados assuntos de relevante importância para o seguimento da igreja.
·         Concílio de Laodicéia (363): A discussão formal do cânon por delegados da igreja, reunidos em concilio oficial, não teve lugar senão em finais do quarto século. O primeiro concílio onde o assunto foi ventilado foi o de Laodicéia, em 363 d.C.
·         Concílio de Hipona (393): O concilio de Hipona, na África, aceitou todos os vinte e sete livros que temos hoje no Novo Testamento.
·         Concílio de Cartago (397): Em Cartago, na África, foi emitido um decreto semelhante ao do Sínodo de Laodicéia e apresentou uma lista de escritos idênticos a dos 27 livros do atual Novo Testamento. Outro concílio, também de Cartago em 419 d.C., confirmou a mesma posição do concilio anterior, mas separou a epístola aos Hebreus dos escritos de Paulo, não aceitando a ideia de que Paulo é quem a escrevera. Agostinho foi um dos principais personagens desses dois concílios.
·         Concílio de Nicéia (325): O concilio de Nicéia aceitou o cânon de Atanásio (todos os atuais 27 livros do atual Novo Testamento). Eusébio, bispo de Cesareia, na Palestina, aceitou essa decisão do concílio de Nicéia, mas não sem fazer algumas restrições. Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, autor de muitos comentários e que foi a principal força influenciadora na igreja do Oriente ao seu tempo (398 d.C.) aceitava os quatro evangelhos, o livro de Atos, 14 epístolas de Paulo, 3 epístolas universais mas não 2 Pedro, 1 e 2 João, Tiago, Judas e o Apocalipse. Esse é o chamado cânon Peshitto (versão Siríaca) que reflete a tradição de Antioquia. Esse era o “cânon” daquela parte do mundo, a despeito da falta de qualquer decisão oficial, tomada em concilio.
·         Concílio de Trento (1546): O concilio de Trento, da igreja romana, aceitou a Bíblia tal como temos hoje em dia, mas no Antigo Testamento, incluiu vários livros apócrifos. Os cristãos protestantes, principalmente sobre a influência de Lutero e de sua tradução da Bíblia para o alemão, aceitavam a Bíblia tal como a temos hoje, sem os livros apócrifos.

Os concílios que discutiram o cânon só tiveram lugar no IV século, e nessa altura o Novo Testamento já se tornara as Escrituras Sagradas da igreja. O cânon existente saiu de um vasto corpo de tradição oral e escrita, e impôs-se às igrejas devido à sua autenticidade e poder dinâmico inerente. Desde o quarto século, não tem havido transformação no cânon reconhecido, se bem que, desde a reforma para cá, se tenha dado expressão a muitos pontos de vista individuais. É fato conhecido que, fora dos concílios, muitos indivíduos, em particular, incluído entre eles muitos lideres da igreja, durante a idade média e até o tempo da reforma, não aceitavam certos livros, ou pelo menos, não lhes davam o mesmo valor que emprestavam a outros e isso vemos na igreja até os dias atuais, por mais que a cristandade aceite todos os livros como sendo sagrados e divinamente inspirados, alguns se tornaram, para alguns grupos cristãos, mais usados, citados e pregados do que outros.

 FONTE: APOSTILA DO NOVO TESTAMENTO - KERIGMA T&D








quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CONSELHOS ÀQUELES QUE PENSAM EM MUDAR DE IGREJA - Renato Vargens

                               

Um náufrago foi encontrado dez anos depois em uma pequena ilha. Quando o capitão do navio de resgate chegou lá notou que havia três cabanas de bambu cobertas com folhas de coqueiro. “Por que três cabanas? Você não ficou aqui sozinho por dez anos?”, perguntou o capitão. “Sim, fiquei”, respondeu o náufrago. E completou: “Aquela primeira cabana é a minha casa e aquela segunda é a minha igreja”. “E o que é aquela terceira cabana ali adiante?”, insistiu o capitão. O magro e barbudo homem, com olhar de desprezo respondeu: “É a minha ex-igreja”
Pois é, essa pequena e engraçada história nos faz pensar na enorme quantidade de pessoas que trocam de igreja como se estivessem trocando de roupa. Assusta-me o fato de que inúmeros cristãos mudem de igreja com tanta facilidade. Talvez isso se deva ao pluralismo eclesiástico de nosso tempo, onde se é possível encontrar uma variedade enorme de igrejas que anunciam o evangelho de Cristo segundo o gosto do freguês. Isto se vê nitidamente nas pregações temáticas com palestras para empresários, endividados, adoecidos na alma, escravizados e etc.
Infelizmente, já vi casos de irmãos que com menos de 05 anos de caminhada cristã já passaram pelo menos por cinco igrejas. O interessante é que boa parte destes crentes migradores, ao chegarem a sua nova comunidade o fazem cheios de murmurações e reclamações quanto às comunidades passadas. No entanto, bastam alguns poucos meses de relacionamento com seus novos irmãos, para descobrirem de que essa igreja não é tão ungida quanto se pensava, e que a igreja do lado tem mais propostas a oferecer do que todas as outras que já passou.
Os que se comportam desta forma justificam suas saídas para uma nova igreja usando desculpas das mais estapafúrdias possíveis. Para estes, o problema é sempre dos outros, além obviamente de justificar seu afastamento afirmando que o pastor é fraco, que a palavra não é ungida, que o louvor não tem poder e que os crentes são falsos e cheios de pecados.
Caro leitor, vamos combinar uma coisa? Ainda que saibamos que algumas migrações eclesiásticas são absolutamente legitimas, temos que convir que boa parte destas não possuem o menor fundamento. O fato é que por vivermos em um tempo onde as relações são ralas e superficiais, as pessoas preferem voar como pássaros de igreja em igreja evitando relacionamentos mais íntimos e profundos do que serem confrontadas em seu modo errado de viver.
Isto posto, resolvi escrever algumas dicas àqueles que pensam em mudar de igreja:
  • Ore.
  • Analise os seus reais motivos. O que será que está motivando a querer mudar de igreja?
  • Cuidado com as suas emoções. Não é porque você se aborreceu com alguém que deve mudar de igreja. Aborrecimentos acontecerão em qualquer Comunidade cristã.
  • Avalie doutrinariamente a igreja que faz parte e a igreja que pretende ir. Lembre-se que igrejas saudáveis possuem um púlpito saudável.
  • A igreja que faz parte possui um governo despótico ditadorial onde o pastor é o ungido do Senhor e não pode ser questionado em absolutamente nada?
  • De que forma a igreja que faz parte lida com o dinheiro?
  • O que você espera de uma igreja? A pregação de todo Conselho de Deus, que lhe confronte ajudando-o a crescer como cristão, ou a ministração de mensagens temáticas que lhe satisfaçam os desejos de uma vida próspera e abençoada?
  • A igreja que você é membro prega “novas” revelações doutrinárias?
  • Se o motivo for razões doutrinárias, esses motivos são realmente importantes?
  • Você se sente tolhido e vítima de abuso espiritual?
  • Converse com seu pastor abertamente sobre o seu desejo e peça conselhos.
  • Ouça pessoas mais maduras e permita o benefício da dúvida.
  • Não seja precipitado. Lembre-se que a precipitação pode levá-lo a experimentar consequências desagradabilissimas.
Pense nisso!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O Pacto de Lausanne - Missão Integral


                                 
Sumário
Introdução
1. O Propósito de Deus
2. A Autoridade e o Poder da Bíblia
3. A Unicidade e a Universalidade de Cristo
4. A Natureza da Evangelização
5. A Responsabilidade Social Cristã
6. A Igreja e a Evangelização
7. Cooperação na Evangelização
8. Esforço Conjugado de Igrejas na Evangelização
9. Urgência da Tarefa Evangelística
10. Evangelização e Cultura
11. Educação e Liderança
12. Conflito Espiritual
13. Liberdade e Perseguição
14. O Poder do Espírito Santo
15. O Retorno de Cristo
Conclusão
Introdução
Nós, membros da Igreja de Jesus Cristo, procedentes de mais de 150 nações, participantes do Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, louvamos a Deus por sua grande salvação, e regozijamo-nos com a comunhão que, por graça dele mesmo, podemos ter com ele e uns com os outros. Estamos profundamente tocados pelo que Deus vem fazendo em nossos dias, movidos ao arrependimento por nossos fracassos e desafiados
pela tarefa inacabada da evangelização. Acreditamos que o evangelho são as boas novas de Deus para todo o mundo, e por sua graça, decidimo-nos a obedecer ao mandamento de Cristo de proclamá-lo a toda a humanidade e fazer discípulos de todas as nações. Desejamos, portanto, reafirmar a nossa fé e a nossa resolução, e tornar público o nosso pacto.
1. O propósito de Deus
Afirmamos a nossa crença no único Deus eterno, Criador e Senhor do Mundo, Pai, Filho e Espírito Santo, que governa todas as coisas segundo o propósito da sua vontade. Ele tem chamado do mundo um povo para si, enviando-o novamente ao mundo como seus servos e testemunhas, para estender o seu reino, edificar o corpo de Cristo, e também para a glória do seu nome. Confessamos, envergonhados, que muitas vezes negamos o nosso chamado e falhamos em nossa missão, em razão de nos termos conformado ao mundo ou nos termos isolado demasiadamente. Contudo, regozijamo-nos com o fato de que, mesmo transportado em vasos de barro, o evangelho continua sendo um tesouro precioso. À tarefa de tornar esse tesouro conhecido, no poder do Espírito Santo, desejamos dedicar-nos novamente.
2. A autoridade e o poder da Bíblia
Afirmamos a inspiração divina, a veracidade e autoridade das Escrituras tanto do Velho como do Novo Testamento, em sua totalidade, como única Palavra de Deus escrita, sem erro em tudo o que ela afirma, e a única regra infalível de fé e prática. Também afirmamos o poder da Palavra de Deus para cumprir o seu propósito de salvação. A mensagem da Bíblia destina-se a toda a humanidade, pois a revelação de Deus em Cristo e na Escritura é imutável. Através dela o Espírito Santo fala ainda hoje. Ele ilumina as mentes do povo de Deus em toda cultura, de modo a perceberem a sua verdade, de maneira sempre nova, com os próprios olhos, e assim revela a toda a igreja uma porção cada vez maior da multiforme sabedoria de Deus.
3. A unicidade e a universalidade de Cristo
Afirmamos que há um só Salvador e um só evangelho, embora exista uma ampla variedade de maneiras de se realizar a obra de evangelização. Reconhecemos que todos os homens têm algum conhecimento de Deus através da revelação geral de Deus na natureza. Mas negamos que tal conhecimento possa salvar, pois os homens, por sua injustiça, suprimem a verdade. Também rejeitamos, como depreciativo de Cristo e do evangelho, todo e qualquer tipo de sincretismo ou de diálogo cujo pressuposto seja o de que Cristo fala igualmente através de todas as religiões e ideologias. Jesus Cristo, sendo ele próprio o único Deus-homem, que se deu uma só vez em resgate pelos pecadores, é o único mediador entre Deus e o homem. Não existe nenhum outro nome pelo qual importa que sejamos salvos. Todos os homens estão perecendo por causa do pecado, mas Deus ama todos os homens, desejando que nenhum pereça, mas que todos se arrependam. Entretanto, os que rejeitam Cristo repudiam o gozo da salvação e condenam-se à separação eterna de Deus. Proclamar Jesus como "o Salvador do mundo" não é afirmar que todos os homens, automaticamente, ou ao final de tudo, serão salvos; e muito menos que todas as religiões ofereçam salvação em Cristo. Trata-se antes de proclamar o amor de Deus por um mundo de pecadores e convidar todos os homens a se entregarem a ele como Salvador e Senhor no sincero compromisso pessoal de arrependimento e fé. Jesus Cristo foi exaltado sobre todo e qualquer nome. Anelamos pelo dia em que todo joelho se dobrará diante dele e toda língua o confessará como Senhor.



4. A natureza da evangelização
Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a todos os que se arrependem e crêem. A nossa presença cristã no mundo é indispensável à evangelização, e o mesmo se dá com aquele tipo de diálogo cujo propósito é ouvir com sensibilidade, a fim de compreender. Mas a evangelização propriamente dita é a proclamação do Cristo bíblico e histórico como Salvador e Senhor, com o intuito de persuadir as pessoas a vir a ele pessoalmente e, assim, se reconciliarem com Deus. Ao fazermos o convite do evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que queiram segui-lo e negarem-se a si mesmos, tomarem a cruz e identificarem-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo.
5. A responsabilidade social cristã
Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta.
6. A Igreja e a evangelização
Afirmamos que Cristo envia o seu povo redimido ao mundo assim como o Pai o enviou, e que isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não cristã. Na missão de serviço sacrificial da igreja a evangelização é primordial. A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo. A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a Cruz deve, ela própria, ser marcada pela Cruz. Ela torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças. A igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas.
7. Cooperação na evangelização
Afirmamos que é propósito de Deus haver na igreja uma unidade visível de pensamento quanto à verdade. A evangelização também nos convoca à unidade, porque o ser um só corpo reforça o nosso testemunho, assim como a nossa desunião enfraquece o nosso evangelho de reconciliação. Reconhecemos, entretanto, que a unidade organizacional pode tomar muitas formas e não ativa necessariamente a evangelização. Contudo, nós, que partilhamos a mesma fé bíblica, devemos estar intimamente unidos na comunhão uns com os outros, nas obras e no testemunho. Confessamos que o nosso testemunho, algumas vezes, tem sido manchado por pecaminoso individualismo e desnecessária duplicação de esforço. Empenhamo-nos por encontrar uma unidade mais profunda na verdade, na adoração, na santidade e na missão. Instamos para que se apresse o desenvolvimento de uma cooperação regional e funcional para maior amplitude da missão da igreja, para o planejamento estratégico, para o encorajamento mútuo, e para o compartilhamento de recursos e de experiências.

8. Esforço conjugado de Igrejas na evangelização
Regozijamo-nos com o alvorecer de uma nova era missionária. O papel dominante das missões ocidentais está desaparecendo rapidamente. Deus está levantando das igrejas mais jovens um grande e novo recurso para a evangelização mundial, demonstrando assim que a responsabilidade de evangelizar pertence a todo o corpo de Cristo. Todas as igrejas, portando, devem perguntar a Deus, e a si próprias, o que deveriam estar fazendo tanto para alcançar suas próprias áreas como para enviar missionários a outras partes do mundo. Deve ser permanente o processo de reavaliação da nossa responsabilidade e atuação missionária. Assim, haverá um crescente esforço conjugado pelas igrejas, o que revelará com maior clareza o caráter universal da igreja de Cristo. Também agradecemos a Deus pela existência de instituições que laboram na tradução da Bíblia, na educação teológica, no uso dos meios de comunicação de massa, na literatura cristã, na evangelização, em missões, no avivamento de igrejas e em outros campos especializados. Elas também devem empenhar-se em constante auto-exame que as levem a uma avaliação correta de sua eficácia como parte da missão da igreja.
9. Urgência da tarefa evangelística
Mais de dois bilhões e setecentos milhões de pessoas, ou seja, mais de dois terços da humanidade, ainda estão por serem evangelizadas. Causa-nos vergonha ver tanta gente esquecida; continua sendo uma reprimenda para nós e para toda a igreja. Existe agora, entretanto, em muitas partes do mundo, uma receptividade sem precedentes ao Senhor Jesus Cristo. Estamos convencidos de que esta é a ocasião para que as igrejas e as instituições para - eclesiásticas orem com seriedade pela salvação dos não alcançados e se lancem em novos esforços para realizarem a evangelização mundial. A redução de missionários estrangeiros e de dinheiro num país evangelizado algumas vezes talvez seja necessária para facilitar o crescimento da igreja nacional em autonomia, e para liberar recursos para áreas ainda não evangelizadas. Deve haver um fluxo cada vez mais livre de missionários entre os seis continentes num espírito de abnegação e prontidão em servir. O alvo deve ser o de conseguir por todos os meios possíveis e no menor espaço de tempo, que toda pessoa tenha a oportunidade de ouvir, de compreender e de receber as boas novas. Não podemos esperar atingir esse alvo sem sacrifício. Todos nós estamos chocados com a pobreza de milhões de pessoas, e conturbados pelas injustiças que a provocam. Aqueles dentre nós que vivem em meio à opulência aceitam como obrigação sua desenvolver um estilo de vida simples a fim de contribuir mais generosamente tanto para aliviar os necessitados como para a evangelização deles.
10. Evangelização e cultura
O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. Com a bênção de Deus, o resultado será o surgimento de igrejas profundamente enraizadas em Cristo e estreitamente relacionadas com a cultura local. A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade; porque ele experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e parte dela é demoníaca. O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre a outra, mas avalia todas elas segundo o seu próprio critério de verdade e justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos, em todas as culturas. As missões, muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras. Os evangelistas de Cristo têm de, humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal, a fim de se tornarem servos dos outros, e as igrejas têm de procurar transformar e enriquecer a cultura; tudo para a glória de Deus.
11. Educação e liderança
Confessamos que às vezes temos nos empenhado em conseguir o crescimento numérico da igreja em detrimento do espiritual, divorciando a evangelização da edificação dos crentes. Também reconhecemos que algumas de nossas missões têm sido muito remissas em treinar e incentivar líderes nacionais a assumirem suas justas responsabilidades. Contudo, apoiamos integralmente os princípios que regem a formação de uma igreja de fato nacional, e ardentemente desejamos que toda a igreja tenha líderes nacionais que manifestem um estilo cristão de liderança não em termos de domínio, mas de serviço. Reconhecemos que há uma grande necessidade de desenvolver a educação teológica, especialmente para líderes eclesiásticos. Em toda nação e em toda cultura deve haver um eficiente programa de treinamento para pastores e leigos em doutrina, em discipulado, em evangelização, em edificação e em serviço. Este treinamento não deve depender de uma metodologia estereotipada, mas deve se desenvolver a partir de iniciativas locais criativas, de acordo com os padrões bíblicos.

12. Conflito espiritual
Cremos que estamos empenhados num permanente conflito espiritual com os principados e postestades do mal, que querem destruir a igreja e frustrar sua tarefa de evangelização mundial. Sabemos da necessidade de nos revestirmos da armadura de Deus e combater esta batalha com as armas espirituais da verdade e da oração. Pois percebemos a atividade no nosso inimigo, não somente nas falsas ideologias fora da igreja, mas também dentro dela em falsos evangelhos que torcem as Escrituras e colocam o homem no lugar de Deus. Precisamos tanto de vigilância como de discernimento para salvaguardar o evangelho bíblico. Reconhecemos que nós mesmos não somos imunes ao perigo de capitularmos ao secularismo. Por exemplo, embora tendo à nossa disposição pesquisas bem preparadas, valiosas, sobre o crescimento da igreja, tanto no sentido numérico como espiritual, às vezes não as temos utilizado. Por outro lado, por vezes tem acontecido que, na ânsia de conseguir resultados para o evangelho, temos comprometido a nossa mensagem, temos manipulado os nossos ouvintes com técnicas de pressão, e temos estado excessivamente preocupados com as estatísticas, e até mesmo utilizando-as de forma desonesta. A igreja tem que estar no mundo; o mundo não tem que estar na igreja.
13. Liberdade e perseguição
É dever de toda nação, dever que foi estabelecido por Deus, assegurar condições de paz, de justiça e de liberdade em que a igreja possa obedecer a Deus, servir a Cristo Senhor e pregar o evangelho sem impedimentos. Portanto, oramos pelos líderes das nações e com eles instamos para que garantam a liberdade de pensamento e de consciência, e a liberdade de praticar e propagar a religião, de acordo com a vontade de Deus, e com o que vem expresso na Declaração Universal do Direitos Humanos. Também expressamos nossa profunda preocupação com todos os que foram injustamente encarcerados, especialmente com nossos irmãos que estão sofrendo por causa do seu testemunho do Senhor Jesus. Prometemos orar e trabalhar pela libertação deles. Ao mesmo tempo, recusamo-nos a ser intimidados por sua situação. Com a ajuda de Deus, nós também procuraremos nos opor a toda injustiça e permanecer fiéis ao evangelho, seja a que custo for. Não nos esqueçamos de que Jesus nos preveniu de que a perseguição é inevitável.
14. O poder do Espírito Santo
Cremos no poder do Espírito Santo. O pai enviou o seu Espírito para dar testemunho do seu Filho. Sem o testemunho dele o nosso seria em vão. Convicção de pecado, fé em Cristo, novo nascimento cristão, é tudo obra dele. De mais a mais, o Espírito Santo é um Espírito missionário, de maneira que a evangelização deve surgir espontaneamente numa igreja cheia do Espírito. A igreja que não é missionária contradiz a si mesma e debela o Espírito. A evangelização mundial só se tornará realidade quando o Espírito renovar a igreja na verdade, na sabedoria, na fé, na santidade, no amor e no poder. Portanto, instamos com todos os cristãos para que orem pedindo pela visita do soberano Espírito de Deus, a fim de que o seu fruto todo apareça em todo o seu povo, e que todos os seus dons enriqueçam o corpo de Cristo. Só então a igreja inteira se tornará um instrumento adequado em Suas mãos, para que toda a terra ouça a Sua voz.

15. O retorno de Cristo
Cremos que Jesus Cristo voltará pessoal e visivelmente, em poder e glória, para consumar a salvação e o juízo. Esta promessa de sua vinda é um estímulo ainda maior à evangelização, pois lembramo-nos de que ele disse que o evangelho deve ser primeiramente pregado a todas as nações. Acreditamos que o período que vai desde a ascensão de Cristo até o seu retorno será preenchido com a missão do povo de Deus, que não pode parar esta obra antes do Fim. Também nos lembramos da sua advertência de que falsos cristos e falsos profetas apareceriam como precursores do Anticristo. Portanto, rejeitamos como sendo apenas um sonho da vaidade humana a ideia de que o homem possa algum dia construir uma utopia na terra. A nossa confiança cristã é a de que Deus aperfeiçoará o seu reino, e aguardamos ansiosamente esse dia, e o novo céu e a nova terra em que a justiça habitará e Deus reinará para sempre. Enquanto isso, rededicamo-nos ao serviço de Cristo e dos homens em alegre submissão à sua autoridade sobre a totalidade de nossas vidas.

Conclusão
Portanto, à luz desta nossa fé e resolução, firmamos um pacto solene com Deus, bem como uns com os outros, de orar, planejar e trabalhar juntos pela evangelização de todo o mundo. Instamos com outros para que se juntem a nós. Que Deus nos ajude por sua graça e para a sua glória a sermos fiéis a este Pacto! Amém. Aleluia!

[Lausanne, Suíça, 1974]